Malvinas, Maradona e Messi: Argentina tira forças do passado e do presente para derrotar a Inglaterra

No café da manhã, a semifinal da Copa do Mundo já havia começado. Os saguões de hotéis, os elevadores e as esquinas do centro da cidade tornaram-se pontos de encontro de duas das nações itinerantes mais apaixonadas pelo futebol. Os argentinos, vestidos de azul celeste e branco, embalaram seu companheiro da manhã muito antes de a primeira cerveja chegar às suas mãos. Os torcedores ingleses, envoltos no branco dos Três Leões, preferiram começar o dia no pub mais próximo, onde o café da manhã chegava principalmente na forma líquida.

Eles trocaram sorrisos, canções e alguns golpes ocasionais, mas por trás das brincadeiras estava a tensão inconfundível que só a Inglaterra contra a Argentina pode evocar. Esta nunca foi apenas mais uma semifinal de Copa do Mundo. Foi uma rivalidade que viajou de Antonio Rattín a Diego Maradona, de David Beckham a Lionel Messi, e que agora estava em Atlanta para a última batalha.

Resumo da partida -Argentina vence Inglaterra e chega à final

A Argentina pareceu compreender a carga emocional desde o apito inicial. Havia uma elasticidade extra em cada passada e uma força maior em cada colisão. Seus jogadores enfrentaram desafios, perseguiram causas perdidas e celebraram tackles.

Mais de quatro décadas se passaram desde a Guerra das Malvinas, mas na Argentina as ilhas continuam sendo Las Malvinas, parte de uma ferida nacional que nunca cicatrizou completamente. O conflito de 1982 durou de 2 de abril a 14 de junho e terminou com a rendição da Argentina. Seiscentos e quarenta e nove militares argentinos, 255 britânicos e três civis foram mortos.

A disputa perdurou na política, na memória pública e no futebol. Para muitos argentinos, o encontro com a Inglaterra não pode ser totalmente separado dos jovens que partiram para o Atlântico Sul e nunca mais regressaram.

Maradona entendeu isso instintivamente. Quatro anos depois da guerra, ele marcou duas vezes contra a Inglaterra no Azteca, primeiro com a Mão de Deus e depois com talvez o maior gol já visto em uma Copa do Mundo. Maradona mais tarde descreveria a vitória como vingança. Para a Argentina, aqueles quatro minutos de 1986 são mais do que história desportiva. Eles se tornaram parte da mitologia do país.

Maradona deu à Argentina um dos momentos decisivos do futebol. Messi garantiu que a história continuaria, não como uma repetição, mas como mais um capítulo.

Maradona deu à Argentina um dos momentos decisivos do futebol. Messi garantiu que a história continuaria, não como uma repetição, mas como mais um capítulo. | Crédito da foto: REUTERS

Maradona deu à Argentina um dos momentos decisivos do futebol. Messi garantiu que a história continuaria, não como uma repetição, mas como mais um capítulo. | Crédito da foto: REUTERS

A imagem de Maradona apareceu em estádios dos Estados Unidos, juntamente com os de Messi, o herdeiro que acabou entregando o troféu que Diego uma vez levantou. Seu nome foi cantado de Dallas a Atlanta, invocado não como uma memória distante, mas como uma presença contínua.

Após a dramática vitória da Argentina sobre o Egito nas oitavas de final, os jogadores cantaram e dançaram em seus vestiários ao som de La Cuarta Estrella (A Quarta Estrela), o hino que acompanhou o time na defesa do título.

“Sou argentino do berço ao túmulo,

Pelas Malvinas, pelo Diego, pelo último do Leo,

Argentina, quero ver vocês se tornarem campeões novamente.”

As palavras situam as Malvinas, Maradona e Messi numa mesma história nacional, onde se entrelaçam sacrifício, memória e futebol.

Na quarta-feira, a Argentina jogou como se tudo ainda importasse.

E quando a vitória foi finalmente assegurada, houve uma ligação entre o passado e o presente. Giovani Lo Celso e Nicolas Otamendi desfraldaram uma faixa onde se lia: “Las Malvinas son Argentinas”, ou “As Malvinas (Ilhas Falkland) são argentinas”.

Não foi um gesto incidental nem uma celebração improvisada. Foi uma mensagem entregue depois que a Inglaterra foi derrotada novamente.

Muito depois do apito final, os jogadores e torcedores argentinos permaneceram unidos na comemoração. A equipe ficou de frente para a extremidade azul-celeste e branca, cantando e dançando com aqueles que a seguiram por cidades, fusos horários e milhares de quilômetros. Os jogadores foram em direção ao túnel apenas para retornar, atraídos por outro coro vindo das arquibancadas.

Para a Argentina, a Inglaterra nunca foi apenas mais um adversário. Quarenta e quatro anos depois da Guerra das Malvinas e quatro décadas depois de Maradona ter transformado para sempre esta rivalidade, outra geração levou essa história para outra final de Campeonato do Mundo.

Publicado em 16 de julho de 2026

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