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De ‘O agente secreto’ a ‘A trilha azul’ para o futuro: como Recife se tornou a florescente capital do cinema no Brasil

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De 'O agente secreto' a 'A trilha azul' para o futuro: como Recife se tornou a florescente capital do cinema no Brasil

Há quase exatamente um ano, Kleber Mendonça Filho, Wagner Moura e o grande elenco e equipe de “O Agente Secreto” transformaram o famoso tapete vermelho do Festival de Cinema de Cannes em um desfile de carnaval improvisado, cortesia do renomado grupo pernambucano de frevo Guerreiros do Passo. Essa homenagem à rica cultura pernambucana refletiu a ode do filme quatro vezes indicado ao Oscar à capital do estado do Recife, que, graças a Mendonça Filho e outros grandes expoentes como Gabriel Mascaro e Marcelo Gomes, além de uma nova geração talentosa – e faminta -, se solidificou como um centro de talentos cinematográficos no Brasil.

Falando na abertura do Encontro Nacional da Rede de Talentos do Projeto Paradiso, realizado este ano em Recife, o secretário de Cultura de Pernambuco, Cacau de Paula, disse que o estado de Pernambuco é “parte direta” do impulso histórico do cinema brasileiro nos últimos dois anos. “Nosso cinema tem mais de um século e é muito rico. Tivemos um ano histórico com ‘A Trilha Azul’ e ‘O Agente Secreto’, é um grande momento do cinema pernambucano e uma grande oportunidade de compartilhar nossas paisagens, nossa criatividade, nossa gente, nosso jeito de falar com o mundo.”

No final de março, Recife realizou o Encontro Nacional de Incentivos Audiovisuais Regionais, organizado pelo Fundo Seccional Nacional (FSA) do Brasil. Importantes figuras do setor de todo o país se reuniram no imponente Cinema São Luiz, que pode ser visto detalhadamente em “O Agente Secreto”, para assinar 41 termos de cooperação entre governos federais, estaduais e municipais. Pernambuco recebeu R$ 24,6 milhões (US$ 5 milhões), sendo R$ 20 milhões (US$ 4 milhões) provenientes do governo federal por meio da FSA e o restante do estado por meio da Adepe.

Encontro Nacional da Rede de Talentos Projeto Paradiso 2026, cortesia de Juana Carvalho

“Nós do governo de Pernambuco temos muito orgulho do nosso cinema e das políticas públicas renovadas de incentivo”, acrescentou. “Estamos testemunhando um período rico após a Lei Paulo Gustavo, incentivos regionais e com mais por vir em breve. A ministra da Cultura, Margareth Menezes, lançou recentemente (em Recife) incentivos regionais, uma iniciativa fundamental durante um momento tão rico para o cinema brasileiro, onde estamos unindo com sucesso criatividade e apoio público para gerar novas oportunidades. Ver todos vocês aqui é ver o futuro que queremos para o nosso cinema. Estamos vendo o cinema de amanhã, respeitando nosso passado e nossas tradições.”

O cinema pernambucano, e especificamente do Recife, tem uma tradição longa e centenária. Na década de 1920, o Ciclo do Recife foi um movimento pioneiro no cinema mudo e uma das safras mais produtivas do século no país, produzindo 13 longas em 8 anos. No final dos anos 90 e início dos anos 2000, Recife abrigou outro movimento cinematográfico crucial, com filmes seminais como “Baile Perfumado” (1996) de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, “Cinema, Aspirinas e Urubins” de Marcelo Gomes (2005) e “Viajo porque preciso, volto porque te amo” (2009) de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz.

A próxima geração já foi impactada pela introdução de fundos regionais para filmes no final de 2007. Entre 2007 e 2011, o cinema pernambucano viu o investimento aumentar mais de 500%, passando de R$ 2,1 milhões (US$ 450 mil) para R$ 11,5 milhões (US$ 2,3 milhões), o que triplicou o número de produtores locais. Os filmes lançados logo após esse salto incluem o longa de ficção de estreia de Mendonça Filho, “Sons Vizinhos”, e “Ventos de Agosto”, de Gabriel Mascaro.

Agora, Mascaro e Mendonça, depois de grandes sucessos internacionais com “O Agente Secreto” e “A Trilha Azul”, estão em seu próprio momento de passar a tocha para a próxima geração de cineastas.

Cortesia de Guillermo Garza/Desvia

“A chegada de Kleber ao Oscar, assim como a trajetória de Gabriel no último ano, são termômetros muito bons de como o mercado internacional percebe nossa produção e ajuda a impulsionar outros cineastas locais”, diz a produtora Thaís Vidal, da Filmes do Atlântico. Vidal está atualmente na pós-produção de “Paraíso de Mujeres”, da diretora argentina Karina Flomenbaum em coprodução com Nevada Cine, e no financiamento de “Amazon Dream”, de Andrew Sala. Ela também está trabalhando em sua estreia na direção, “Sensor de Ausência”, uma coprodução Brasil-França com Socle, Vitrine Filmes, Moçambique e Filmes do Atlântico.

O lendário produtor recifense João Vieira Jr., da Carnaval Filmes, disse à Variety que sua cidade natal está “dando os frutos de décadas de trabalho coletivo”. “Fomos uma geração que decidiu, no final dos anos 90, que era possível fazer cinema de qualidade em Recife sem pedir autorização ao eixo Rio-São Paulo. ‘Baile Perfumado’ abriu essa porta, depois ‘Cinema, Aspirinas e Urubins’ foi para Cannes e ‘Viajo porque preciso, volto porque te amo’ foi para Veneza.”

“Cada uma dessas etapas comprovou que o cinema pernambucano não é um fenômeno regional, é um cinema com linguagem própria, que pode dialogar com o mundo. O que estamos vivenciando hoje é a consolidação de um trabalho que vem sendo realizado há muito tempo”, acrescenta Vieira Jr., que está em pós-produção de “Correnteza” de Wislan Esmeraldo, roteirista de “Motel Destino”, e Hilton Lacerda (“Tatuagem”), e prestes a encerrar as filmagens de “Madrugada”, de Armando Praça (“Greta”), filmado inteiramente à noite no centro do Recife.

Ao conversar com cineastas locais, o sentimento unânime é de orgulho pelo senso de comunidade construído pela indústria no Recife. No início do século, a sensação de isolamento do pólo industrial do Sudeste, somada à falta de oportunidades estruturadas de financiamento, levaram produtores, diretores e roteiristas a se unirem para realizar filmes. Duas décadas depois, o governo Bolsonaro, seguido pela pandemia, replicou esta necessidade de uma união forte para uma geração mais jovem.

“Tínhamos coletivos e, com eles, possibilidades de trabalharmos nos filmes uns dos outros, assumirmos funções diferentes, trocarmos feedback… Naquela época, a escassez funcionava como uma força motriz para a colaboração”, diz Emilie Lesclaux, a produtora francesa radicada em Recife que conseguiu uma indicação histórica ao Oscar de melhor filme por “O Agente Secreto” no início deste ano.

“Quando filmei meu primeiro longa, há 22 anos, não tínhamos escola de cinema”, ecoa o veterano Marcelo Gomes. “Só foram feitos dois ou três longas-metragens no Recife em 30 anos. Então trouxemos chefes de departamentos de outros estados, mas fizemos questão de contratar vários estagiários e pagar adiante. Várias pessoas que trabalharam em nossos sets passaram a fazer seus próprios filmes, como Gabriel Mascaro, Juliano Dornelles e Pedro Sotero.”

“Cinema, Aspirinas e Abutres”

“Pernambuco foi o primeiro estado do Brasil a abrir chamada pública de projetos, e isso só porque éramos muito unidos como artistas e pressionamos o governo”, enfatiza. “Isso nos permitiu construir uma rede criativa muito estreita, construída sobre um senso de solidariedade. No Rio as coisas estão muito fragmentadas; a cidade é muito maior”.

Mendonça Filho diz algo parecido, comentando que quando estava fazendo “Sons Vizinhos” foi “pressionado a contratar um grande nome como diretor de fotografia”, mas escolheu o novato e amigo Pedro Sotero. “Hoje ele é um dos grandes cineastas brasileiros. Essas decisões são técnicas, mas também afetuosas.”

O cineasta ganhador do Globo de Ouro comenta como, ainda na semana passada, cinco criativos pernambucanos receberam o Prêmio Platino por seu trabalho em “O Agente Secreto”: Tomaz Alves Souza e Mateus Alves pela trilha original, Thales Junqueira pela concepção de produção e Eduardo Serrano e Matheus Faria pela montagem. “Isso apenas reitera a noção de que é possível fazer ótimo cinema em Recife. É uma loucura que isso esteja em discussão em 2026.”

O roteirista e diretor Karkará Tunga, que atualmente trabalha em seu longa de estreia na direção “Batoki: Noite Sem Lua”, lembra de ter feito parte da turma inaugural de formandos da primeira escola de cinema do Recife, outro divisor de águas para a comunidade cinematográfica da cidade. “Quando cheguei a Pernambuco e vi o nível de financiamento público disponível, entendi que era possível fazer filmes aqui”, ressalta o criativo, cuja família é pernambucana mas foi criada em São Paulo, realidade enfrentada por muitos cineastas de segunda geração nascidos em famílias que trocaram o Nordeste pelo Sudeste nas décadas de 80 e 90.

“Ainda temos um longo caminho a percorrer no que diz respeito ao acesso de cineastas indígenas e negros a esses recursos, mas há uma sensação de possibilidade”, acrescenta Tunga. “Fiz parte da primeira turma de alunos formados na escola de cinema local e pude ver um grupo muito mais diversificado de cineastas vindo logo atrás de mim. A geração da escola de cinema desafiou essa hegemonia para criar um forte senso de comunidade e nutrir o desejo de construir um novo cinema. Um que parece muito mais concreto hoje do que há seis anos, quando o governo Bolsonaro dizimou nossas estruturas públicas.”

Apesar de todos os aspectos positivos, como em qualquer outro lugar do mundo, ainda existem desafios que assolam a indústria local. “Nossas desvantagens são estruturais”, diz Vieira Jr. “Estamos longe dos centros de financiamento, não temos salas de exibição de qualidade longe das capitais e dependemos fortemente de editais abertos de financiamento federal diretamente ligados aos ritmos instáveis ​​das políticas culturais do Brasil. Aprendemos a ser resilientes, mas merecemos mais e sabemos como pedir.”

“Espero também que nós, como artistas, continuemos a pressionar o governo para promover o cinema e cultivar o público”, ecoa Gomes. “Precisamos de novos públicos, precisamos que filmes feitos em Recife sejam vistos em todo o Brasil.”

O produtor Wandryu Figueredo do Nascimento, que atualmente trabalha no “Ontem Foi Dia 22 de Junho”, destaca que Recife precisa de mais centros de treinamento e oportunidades de desenvolvimento. “Nosso estado vizinho, o Ceará, tem laboratórios, oficinas e programas de formação de escritores incríveis”, continua o produtor. “Só podemos contar com a escola de cinema e os festivais de cinema. A Ceará Film Commission também está muito à frente da nossa recém-inaugurada Recife Film Commission, mas temos esperança de que chegará lá.”

“Para que algo como (‘O Agente Secreto’) volte a acontecer, precisamos de uma política local que construa pontes entre as produtoras locais e o mercado internacional, promovendo a participação dos produtores pernambucanos nas grandes plataformas de coprodução”, comenta Vieira Jr.

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