Esperando por Moisés: os filhos de África na guerra da Rússia

Douala, Camarões – A casa de Mama Regina fica entre o vasto porto de contêineres de Douala e as extensas favelas da cidade. Os navios de carga vêm e vão. Caminhões passam carregando madeira, cacau e petróleo em direção ao Atlântico. Dentro de sua casa, o tempo mal passa.

Na parede está pendurado um retrato de seu filho, Moisés.

“Tão lindo”, ela sussurra, quase para si mesma.

Seu sorriso pertence a outra vida.

A dor chega em ondas. Tal como o Atlântico para além do porto de Douala, recua apenas o tempo suficiente para deixá-lo respirar antes de regressar com a mesma força implacável. Seja sob um céu cinzento cheio de chuva que nunca chega ou sob o sol escaldante dos Camarões, não há abrigo contra ele. Contra os elementos e contra o próprio tempo, ela é impotente.

Por mais de um ano, ela esperou.

Não para o filho dela. Para o corpo dele.

“Ele deixou este mundo da mesma forma que entrou”, diz ela. “Sofrimento, sem dizer uma palavra.”

Não há mais raiva em sua voz. Apenas exaustão.

Ela narra o telefonema quase mecanicamente, como se a repetição tivesse despido tudo das palavras, exceto seu peso. O apelo veio de milhares de quilómetros de distância, não dos Camarões, nem mesmo de África, mas da guerra da Europa.

O filho dela estava lutando ao lado das forças russas quando foi atacado pela Ucrânia. Ele foi baleado enquanto corria em direção às trincheiras.

Enquanto ela fala, o silêncio preenche os espaços entre suas frases. Encontro-me imaginando a violência inimaginável de seus momentos finais. A violência de um campo de batalha a milhares de quilómetros de casa.

Ela pressiona a mão contra o peito.

“Ele partiu para mim”, ela diz calmamente. “Para nós.”

“Para travar a guerra de outro homem”, acrescenta ela.

Uma nova migração

Ao ouvi-la descrever as trincheiras, a minha mente vagueia para outra geração de africanos enviados para os campos de batalha da Europa. Penso nos Tirailleurs senegaleses que cruzaram o Mediterrâneo para lutar e morrer pela França, em guerras que não eram as deles.

De acordo com autoridades ucranianas, quase 3.000 africanos de 35 países estão a lutar ao lado das forças russas, o que Kiev diz ser o resultado de um recrutamento activo em todo o continente.

O ex-oficial do exército russo Sergey Elidonov rejeita a alegação.

“É tudo falso”, diz ele. “Essas histórias sobre casas russas ou redes de recrutamento em países africanos não existem. A Rússia oferece o salário e as condições. Se as pessoas quiserem vir, elas encontrarão o seu próprio caminho.”

Eu o conheci em Dakar.

Ele é afetável e articulado, com a confiança de alguém que passou a vida inteira perto de soldados. Quando não está falando de guerra, ele fala de filosofia. Trabalhou na Europa, África e Ásia, embora permaneça deliberadamente esquivo quanto à natureza das suas funções.

Elidonov argumenta que a proeminência dos Camarões entre os recrutas africanos se deve mais à história do que ao recrutamento clandestino.

“A relação remonta à União Soviética”, diz ele. “Um grande número de estudantes camaroneses estudam lá. Há décadas que existe uma diáspora camaronesa na Rússia.”

Para ele, a economia explica o resto.

“As pessoas estão desesperadas. Querem sustentar as suas famílias.”

Para a professora Aicha Pemboura, que tem pesquisado o fenómeno, a história vai muito além do recrutamento militar.

Muitos dos que se dirigem para a Rússia são soldados camaroneses experientes, endurecidos pela batalha por anos de luta contra o Boko Haram, grupos separatistas e pirataria.

Mas eles não estão sozinhos. Estudantes, licenciados desempregados e jovens também estão a fazer a viagem, muitas vezes acreditando que estão a viajar em trabalho ou para estudar, antes de se encontrarem a assinar contratos militares.

“O que estamos vendo é um novo tipo de migração”, diz ela. “As pessoas partem com a esperança de um futuro melhor. Isso não substitui as outras rotas de migração. É simplesmente mais uma rota.”

Para Pemboura, a guerra na Ucrânia está a drenar silenciosamente os países africanos de soldados, estudantes e trabalhadores qualificados.

“Tudo isto representa uma perda para África”, diz ela.

Soldados esquecidos

Para muitos de nós, a guerra existe apenas através dos boletins de notícias da televisão e da interminável rolagem das redes sociais. Conhecemos o som da artilharia e a visão de trincheiras sem nunca termos estado dentro delas.

Nem sempre foi assim.

Durante a Segunda Guerra Mundial, centenas de milhares de soldados africanos cruzaram continentes para lutar pela liberdade da Europa. Os Tirailleurs senegaleses desembarcaram nas praias da Provença, marcharam pela França e pela Alemanha, ajudando a libertar um continente que mais tarde lutaria para lembrá-los.

Eu conheço esse esquecimento.

Quando imagino a libertação de Paris, ainda vejo instintivamente soldados brancos americanos, britânicos e franceses. Levei anos para perceber que o meu tio-avô também estava lá – um homem de pele morena da Bengala colonial, lutando numa guerra europeia que se tornaria a história de outra pessoa.

A história tem o hábito de branquear seus heróis.

Eu me pergunto quais rostos estarão faltando nas fotos quando esta guerra for lembrada.

Esperando

Hoje, outra guerra europeia está a atrair jovens africanos para norte. Não para libertar um continente, mas para lutar no seu conflito mais sangrento desde 1945.

Alguém retornará transformado.
Alguém retornará em silêncio.
Alguém nunca mais retornará.

Mamãe Regina está esperando um corpo. Sem ele, não pode haver funeral. Sem sepultura. Nenhuma oração final.

Um corpo é a prova de que um filho existiu.
Prova de que ele lutou.
Prova de que ele era amado.
Prova de que esta guerra distante entrou na vida dos africanos.

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