Início Entretenimento Momento do ‘Agente Secreto’ e Desejo de Co-Produzir com a África: 5...

Momento do ‘Agente Secreto’ e Desejo de Co-Produzir com a África: 5 Conclusões do Encontro Nacional da Rede de Talentos do Projeto Paradiso

22
0
Momento do 'Agente Secreto' e Desejo de Co-Produzir com a África: 5 Conclusões do Encontro Nacional da Rede de Talentos do Projeto Paradiso

Muito raramente se tem a oportunidade de estar numa sala com quase duzentos cineastas de um único país, reunidos não para competir uns contra os outros por escassas subvenções, mas para discutir formas de colaboração e compreender para onde vai o seu cinema nacional. Essa é justamente a oferta do Encontro de Talentos Nacionais do Projeto Paradiso, que acaba de encerrar sua terceira edição de sucesso, realizada na florescente capital do cinema, Recife.

O encontro bianual celebra o trabalho da renomada iniciativa filantrópica, liderada pelo Instituto Olga Rabinovich e que apoia o setor cinematográfico brasileiro por meio de desenvolvimento de talentos, programas de bolsas, seminários e mentoria. O encontro deste ano aconteceu de 16 a 18 de abril e contou com sessões de networking, mesas redondas e eventos de conversa com curadoria de Kleber Mendonça Filho, da produtora Emilie Lesclaux e do cineasta anglo-nigeriano Akinola Davies Jr. Os participantes incluíram Anita Rocha da Silveira (“Medusa”), Nara Normande (“Heartless”), Grace Passô (“Nosso Segredo”), Letícia Friedriech da Vitrine Filmes e Amazon Studios’ Jaqueline Souza, além dos elogiados vereadores do Projeto Paradiso, Marcelo Gomes (“Dolores”) e da diretora da Gullane, Debora Ivanov.

A Variety esteve presente no evento e conversou com diversos participantes para medir a temperatura da indústria nacional após dois anos marcantes de sucesso internacional com o primeiro Oscar do país por “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, e quatro indicações ao Oscar por “O Agente Secreto”, de Mendonça Filho, do Recife. De um forte impulso no Nordeste a uma escassa presença em Cannes em 2026, leia nossas cinco conclusões abaixo:

“O Agente Secreto”, cortesia de Neon

Cortesia de Néon

O Nordeste é o momento

Apesar de o Nordeste do Brasil ter uma forte tradição cinematográfica, com expoentes de Glauber Rocha a Marcelo Gomes e Guel Arraes, durante décadas, grande parte da indústria geradora de dinheiro concentrou-se no Sudeste – especificamente Rio de Janeiro e São Paulo. Cineastas de outros cantos do país há muito que expressam frustrações com a falta de acesso a recursos e um certo sentimento de segregação em relação às iniciativas e oportunidades de networking disponíveis.

Os últimos três anos, no entanto, solidificaram ainda mais o Nordeste como um importante exportador de talentos e um rico centro criativo. Enquanto cineastas regionais renomados como Gabriel Mascaro (“A Trilha Azul”), Kleber Mendonça Filho (“O Agente Secreto”) e Karim Aïnouz (“Motel Destino”) continuaram suas trajetórias bem estabelecidas com títulos de sucesso em grandes festivais, uma nova geração emergente de cineastas sinalizou um senso muito necessário de continuação e renovação na região. Nomes como Allan Deberton, Rafhael Barbosa, Tiago Melo e Nara Normande lançaram queridinhos do festival e têm novos projetos emocionantes em andamento.

Durante o Encontro Nacional de Talentos do Projeto Paradiso, muitos jovens cineastas expressaram seus desejos de levar histórias inéditas para a tela grande e continuar a expandir internacionalmente uma ideia plural de brasilidade por meio do cinema. Com cada vez mais comissões de filmes surgindo no Nordeste e incentivos regionais renovados, bem como produtores experientes com vasta experiência em coprodução, estamos prestes a ver muitos mais filmes interessantes saindo da região.

Decepção em Cannes = novas oportunidades europeias

No ano passado, Kleber Mendonça Filho trouxe o frevo do Recife para o tapete vermelho do Festival de Cannes para a estreia mundial do título do concurso “O Agente Secreto”. O Brasil também foi o país homenageado no Marché du Film e trouxe um número recorde de participantes da indústria para a Croisette. Sem nenhum filme brasileiro anunciado no festival deste ano, o sentimento de surpresa e decepção era palpável no encontro sempre que a festa francesa aparecia nas conversas. Até o momento, o Brasil está presente apenas por meio de coproduções (“Elefantes no Nevoeiro” em Um Certo Olhar, “Seis Meses no Prédio Rosa” na Semana da Crítica e “La Perra” na Quinzena dos Realizadores) sem nenhum diretor brasileiro programado para aparecer no evento na seleção oficial ou nas barras laterais.

Embora a falta de títulos brasileiros em Cannes traga um sabor amargo ao início da temporada de festivais de verão, muitos produtores e diretores enfatizaram o desejo de olhar além da grande tríade europeia de Berlim, Cannes e Veneza como plataformas de lançamento. Rotterdam, que tem uma ligação histórica com o cinema brasileiro, é um queridinho e favorito de longa data, mas cada vez mais talentos locais estão voltando sua atenção para festivais como San Sebastián, Karlovy Vary e Locarno como principais opções para lançar seus filmes.

“A Trilha Azul”

Cortesia de Guillermo Garza/Desvia

Olhando além da Europa

A Europa continua a ser o objetivo de muitos cineastas brasileiros quando se trata de partilhar pela primeira vez os seus filmes com o público, mas, cada vez mais, os produtores olham para fora da Europa e dos EUA quando estabelecem coproduções. Vários produtores presentes no encontro do Projeto Paradiso demonstraram grande interesse em compreender melhor os sistemas de financiamento nos países vizinhos da América do Sul, sendo o Chile, em particular, visto como um parceiro forte.

O britânico-nigeriano Akinola Davies Jr., que participou do encontro para um longo bate-papo e exibição de “A Sombra do Meu Pai” no imponente Cinema São Luiz, abriu o apetite local por colaborações com países africanos. Os cineastas negros brasileiros falaram longamente sobre as oportunidades que existem no trabalho dentro da diáspora e como os países africanos oferecem não apenas culturas semelhantes, mas também um parentesco sentido quando se trata de compreender as feridas pós-coloniais que permeiam a sociedade brasileira. Atualmente, são poucas as coproduções estabelecidas entre o Brasil e o continente africano, portanto ainda existem alguns obstáculos logísticos e burocráticos para que se torne uma colaboração mais comum, mas o desejo está muito presente no país sul-americano.

Colaboração acima da competição

Perto do final do fim de semana, muitos participantes puderam ser ouvidos dizendo: “Gostaria que trabalhássemos assim em São Paulo/Rio de Janeiro”. Esse sentimento muitas vezes pontuou conversas com cineastas do Nordeste, que construíram uma indústria próspera baseada na colaboração em vez da competição. Embora, claro, ainda exista uma elevada concorrência na região, os fabricantes tiveram de unir-se em meados da década de 2000 para descobrir como sustentar uma indústria antes dos incentivos, e novamente alguns anos mais tarde, quando os fundos públicos se tornaram disponíveis e as pessoas precisaram de se ajudar umas às outras para compreender a melhor forma de aceder ao que estava sobre a mesa.

O Projeto Paradiso também adotou um espírito semelhante, estruturando o encontro da sua rede de talentos em torno da colaboração e do compartilhamento de conhecimento, em vez de criar um evento de mercado mais tradicional estruturado em torno de seções competitivas. “Queremos que todos se sintam bem”, disse Rachel do Valle, diretora do programa Projeto Paradiso, à Variety. “O que outros mercados chamariam de sessão de pitching, nós chamamos de sessão de conexão. É um espaço para conversar, mas também para ouvir. Queremos que seja agradável e divertido.”

Fundos públicos consistentes: chave para o futuro

Não é possível participar de um evento do setor no Brasil sem que grupos se reúnam para falar sobre as políticas públicas e incentivos do país. Embora os cineastas reconheçam o impulso histórico do seu cinema nacional no cenário internacional, muitos manifestaram preocupação de que a sensação de vitória possa obscurecer as questões muito reais que ainda permeiam a indústria. As questões principais incluem a tão esperada regulamentação dos serviços de streaming, a necessidade de uma comissão nacional de cinema centralizada e, talvez o mais urgente, calendários de financiamento mais bem estruturados.

“Há 10 anos o Ministério da Cultura abriu editais específicos para estreantes com foco regional, não temos mais isso”, disse o veterano produtor João Vieira Jr., da Carnaval Filmes. “Precisamos ter editais diferenciados: para diretores de primeiro ou segundo mandatos, produtoras consolidadas, produtoras rurais… Não é um privilégio, é uma forma inteligente de gerir políticas públicas que garanta a sustentabilidade.”

A produtora Thais Vidal ecoou esse pensamento: “Temos um fundo estadual consolidado em Pernambuco, equipes qualificadas e estrutura para produzir e pós-produzir em Recife, mas enfrentamos o mesmo problema que assola o resto do país, que é a falta de um calendário nacional fixo de financiamento. Isso é necessário para que possamos efetivamente planejar com antecedência”.

Fuente