Recife, uma movimentada capital do Nordeste do Brasil, foi recentemente catapultada para a atenção global graças ao filme de Kleber Mendonça Filho, quatro vezes indicado ao Oscar, “O Agente Secreto”. O drama de época que altera o gênero faz do Recife não apenas seu cenário, mas um personagem principal em si mesmo, com o elogiado ator Wagner Moura percorrendo as ruas e becos da cidade enquanto tenta escapar de mafiosos perigosos. Agora, pouco mais de um mês desde a incursão de Mendonça Filho no Oscar, Recife se prepara para sediar mais um importante evento cinematográfico: o encontro nacional da Rede de Talentos do Projeto Paradiso.
O encontro bianual celebra o trabalho da renomada iniciativa filantrópica, liderada pelo Instituto Olga Rabinovich com o objetivo de apoiar o setor cinematográfico brasileiro por meio do desenvolvimento de talentos, programas de bolsas, seminários e mentoria. O encontro deste ano acontecerá em Recife entre os dias 16 e 18 de abril e contará com palestrantes importantes, incluindo Mendonça Filho, da cidade, ao lado de sua parceira de produção Emilie Lesclaux, para falar sobre “O Agente Secreto” e o cineasta anglo-nigeriano vencedor do BAFTA, Akinola Davies Jr., que dará uma conversa aprofundada moderada pela talentosa Paradiso, Jaqueline Souza, além de apresentar “A Sombra do Meu Pai” no histórico cinema São Luiz da cidade. Mais de 70% da rede de talentos da instituição deverá comparecer – número que saltou de 140 para 184 no último evento, e quase dobrou desde o primeiro encontro nacional oficial em 2022.
Cortesia de Millena Palladino
Milena Palladino
Em conversa com a Variety antes de viajar para Recife, a diretora do programa Projeto Paradiso, Rachel do Valle, lembra-se de ter recebido pela primeira vez cerca de 30 talentos em seu pequeno escritório em São Paulo em 2020 para um encontro informal. A ideia por trás daquela tarde expandiu-se para o evento bianual de networking, uma vez que a equipe percebeu como era benéfico para seus talentos passarem bons momentos juntos. “Percebemos muito rapidamente que a nossa força como organização vinha da nossa rede brilhante”, diz ela. “Queríamos que essas reuniões fossem um local de networking, sim, mas de maneira vital, que fosse um local para as pessoas se conhecerem e conhecerem a nossa equipe.”
Após a primeira edição em São Paulo, o Projeto Paradiso ouviu o feedback de seus talentos sobre a falta de acessibilidade a eventos do setor fora da famosa ponte Rio-São Paulo. A descentralização tornou-se um foco imediato, especialmente considerando que mais de um quarto da sua rede está baseada no Nordeste. A segunda edição foi realizada em Salvador, capital da Bahia. “Queríamos refletir a pluralidade dos nossos talentos, que vêm de todos os cantos do país.”
Na hora de decidir o local do evento deste ano, Recife se destacou não só por “O Agente Secreto”, mas pelo legado cinematográfico da cidade. Muitos outros grandes diretores brasileiros vêm da capital, incluindo o diretor de “A Trilha Azul”, Gabriel Mascaro, e o veterano Marcelo Gomes (“Dolores”, “Retrato de um Certo Oriente”). A cidade também abriga dezenas de talentos do Projeto Paradiso, incluindo figuras-chave na produção de “O Agente Secreto”, que também se reunirão no evento para falar sobre todos os aspectos da concretização do sucesso do filme brasileiro.

Encontro Nacional do Projeto Paradiso em Salvador, cortesia do Projeto Paradiso
Milena Palladino
Apesar de reunir figuras importantes do setor e apresentar uma série de eventos de networking, a equipe responsável pelo encontro nacional do Projeto Paradiso é categórica ao afirmar que não administra um mercado, um festival ou uma plataforma do setor. “Insistimos em apresentar a ideia do encontro como indo contra os acontecimentos do mercado”, diz do Valle. “Não queremos que o momento seja manchado por um senso tangível de competição. Queremos que todos se sintam bem. O que outros mercados chamariam de sessão de pitching, nós chamamos de sessão de conexão. Os participantes apresentam seus projetos em uma sala segura, onde podem praticar falar sobre seus filmes sem a pressão de uma plataforma de pitching. É um espaço para conversar, mas também para ouvir. Queremos que seja agradável e divertido.”
“É um evento único porque é suis generis”, ecoa a diretora executiva Josephine Bourgois. “Conversamos com as outras poucas redes de talentos que operam hoje no Brasil e encontramos muita inspiração na ideia de estarmos juntos em uma sala segura, nessa ideia de coletividade e comunidade. Isso é essencial para o nosso trabalho. É uma coisa difícil de fazer pessoalmente porque envolve altos custos e muito trabalho. Não podemos negar esse aspecto e acho importante mencioná-lo. Mas é um investimento que vale a pena para nós.”
Bourgois reitera que ter acesso a uma comunidade de criativos com ideias semelhantes faz uma “diferença tangível” para os seus talentos. A organização já pode se orgulhar de vários projetos que começaram com o encontro de profissionais em um de seus eventos nacionais, incluindo o vencedor deste ano da Geração Urso de Cristal na Berlinale, “Gugu’s World”, que se concretizou após a produtora Karen Castanho ser apresentada a Allan Deberton em Salvador. “Pode ser assustador participar de um evento como esse, mas tentamos facilitar ao máximo o encontro e a conexão com outras pessoas. Ouvimos de talentos que participaram de eventos como Cannes que eles ficam à vontade em saber que terão outros talentos da Paradiso lá. Essa rara sensação de segurança e união em uma indústria hipercompetitiva é muito valiosa para nós.”

‘O Agente Secreto’, Wagner Moura, 2025. © Neon /Cortesia Coleção Everett
Cortesia da coleção Everett
“Também temos, claro, uma visão muito estratégica destes dois dias”, enfatiza Bourgois. “Não é apenas um fim de semana, é o culminar de dois anos de trabalho. Precisamos nutrir constantemente a nossa rede, para que o que acontece na reunião possa ecoar nos próximos anos.”
Com 214 bolsas, 94 prêmios e 66 workshops oferecidos nos breves anos desde a sua criação, o Projeto Paradiso se solidificou como um grande facilitador para a internacionalização do cinema brasileiro, muitas vezes apoiando talentos para participarem das festas e mercados mais proeminentes da indústria.
“A internacionalização é um grande aspecto do programa, claro”, diz do Valle. “Muitos dos nossos talentos foram selecionados, de uma forma ou de outra, através da participação em um programa internacional. Temos uma proximidade natural com o mercado internacional. Quando os talentos falam sobre sua experiência pessoal com esses programas, naturalmente a conversa muda nessa direção.”
“Nos dois últimos encontros procuramos trazer um grande nome internacional, mesmo que acreditemos que não seja o aspecto mais relevante do evento”, acrescenta Bourgois. “No nosso primeiro ano, Julien Rejl tinha acabado de começar como programador-chefe da Quinzena dos Realizadores e foi a primeira vez que veio ao Brasil como curador. Depois tivemos Ladj Ly, um renomado diretor vindo da periferia e um importante artista negro que se conectou com muitos de nossos talentos e com o ethos de sediar o encontro em Salvador. Sua presença no encontro gerou grandes parcerias.”
Escolher Davies Jr. como convidado internacional de honra para a edição deste ano pareceu natural, uma vez que a equipe assistiu a “My Father’s Shadow”, selecionado em Cannes. “É um filme que poderia ter sido feito por qualquer um dos nossos talentos”, afirma o diretor executivo. “É um filme bem brasileiro que também teve uma jornada incrível de festivais e premiações, então nossos talentos poderão ouvir mais sobre essa experiência prática também.”
Enquanto se preparam para o encontro, a equipe do Projeto Paradiso relembra palestra proferida por sua líder Olga Rabinovich na edição de 2024. Ao ser questionada sobre o que sonhava para o futuro do evento, a filantropa disse: ‘Quero ver esta sala cada vez mais movimentada. Eu quero ver isso completamente.”
“Sinto que estamos honrando o sonho dela este ano”, finaliza Valle.



