O Supremo Tribunal Federal do Brasil negou novamente um pedido da defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro para transferi-lo da prisão para prisão domiciliar.
Bolsonaro, de 70 anos, entrou e saiu do hospital na semana passada, passando por vários tratamentos para soluços agressivos e hérnia.
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Mas na quinta-feira, o seu pedido de prisão domiciliária por “motivos humanitários” foi negado, um dia depois de ter sido apresentado.
Ao explicar a decisão do tribunal, o ministro Alexandre de Moraes argumentou que Bolsonaro já tem acesso a atendimento médico 24 horas por dia sob custódia policial.
O ex-líder da direita está atualmente detido na sede da Polícia Federal na capital, Brasília, após ter sido condenado a 27 anos de prisão por tentar reverter a derrota eleitoral de 2022.
De Moraes também questionou se a saúde de Bolsonaro merecia acomodações “humanitárias”.
“Ao contrário do que alega a defesa, não houve agravamento do estado de saúde de Jair Messias Bolsonaro”, disse o ministro em sua decisão.
“Em vez disso, seu quadro clínico apresentou melhora do desconforto que sentia após passar por cirurgias eletivas, conforme indicado no laudo de seus próprios médicos.”
Dr Brasil Caiado speaks after Bolsonaro underwent surgery to treat hiccups on December 29, 2025 (Mateus Bonomi/Reuters)
Várias solicitações
Esta não é a primeira vez que o tribunal rejeita uma petição semelhante de Bolsonaro, que teria sofrido de condições persistentes, incluindo soluços, relacionadas a uma facada abdominal a que sobreviveu durante a campanha em 2018.
Bolsonaro foi levado sob custódia em novembro depois de danificar um monitor de tornozelo que lhe permitiu permanecer em casa enquanto processava recursos. Ele havia sido condenado em setembro.
Mas pouco depois de Bolsonaro ter sido detido sob custódia, a sua equipa de defesa apresentou um pedido de prisão domiciliária, alertando para as condições de risco de vida atrás das grades.
“É certo que manter o peticionário em ambiente prisional representaria um risco concreto e imediato à sua integridade física e até à sua vida”, escreveram os seus advogados.
Esse pedido, e outro subsequente em dezembro, foram negados.
No dia 23 de dezembro, porém, o Supremo Tribunal Federal aprovou o pedido de Bolsonaro para sair da prisão, para se submeter a uma cirurgia de hérnia, resultante de lesões nos músculos abdominais.
Ele viajou para o hospital DF Star, em Brasília, para receber tratamento e, desde então, realizou outros procedimentos, incluindo um tratamento de bloqueio do nervo frênico e uma endoscopia, para tratar seus soluços persistentes.
Polêmica eleitoral
Ex-capitão do exército, Bolsonaro tornou-se uma estrela em ascensão na extrema direita do Brasil e serviu como presidente por um único mandato, de 2019 a 2023.
Durante o seu mandato, foi alvo de escrutínio por comentários que fez elogiando a ditadura militar do Brasil, que governou o país de 1964 a 1985 e supervisionou a tortura e assassinatos sistemáticos de dissidentes políticos.
Ele também teria usado seu cargo para lançar dúvidas sobre a integridade do sistema de votação eletrônica do Brasil.
Em 2023, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do Brasil acabaria por proibir Bolsonaro de ocupar cargos públicos durante oito anos, citando casos em que ele transmitiu alegações infundadas sobre o sistema eleitoral na televisão estatal e nas redes sociais.
Mesmo assim, Bolsonaro foi considerado um favorito na corrida presidencial de 2022, onde enfrentou o ex-presidente de dois mandatos, Luiz Inácio Lula da Silva.
A corrida avançou para um segundo turno em 30 de outubro. Lula obteve uma vitória apertada, superando o atual Bolsonaro por menos de dois pontos percentuais, com 50,9% dos votos.
Na sequência, Bolsonaro recusou-se a admitir publicamente a derrota, embora relatos da mídia indiquem que ele pode ter feito isso em privado.
Entretanto, ele e os seus aliados apresentaram um recurso legal contra o resultado eleitoral, que foi rapidamente rejeitado pela sua “total ausência de qualquer prova”. A coalizão de Bolsonaro foi multada em quase US$ 4,3 milhões pela petição de “má-fé”.
Mas a crença infundada de que a derrota de Bolsonaro foi de alguma forma ilegítima levou os seus apoiantes a saírem às ruas. Algumas rodovias bloqueadas. Outros atacaram a sede da Polícia Federal.
As tensões culminaram em 8 de janeiro de 2023, uma semana após a posse de Lula, quando milhares de apoiadores de Bolsonaro invadiram a Praça dos Três Poderes de Brasília e invadiram edifícios que representam o Congresso, a Presidência e o Supremo Tribunal Federal.
Alguns apoiadores expressaram esperança de que poderiam levar a um golpe militar que removeria Lula do poder.
O senador Flávio Bolsonaro segura bonecos representando o presidente dos EUA, Donald Trump, e Bolsonaro, em 19 de dezembro de 2025 (Adriano Machado/Reuters)
Risco legal
Esse ataque desencadeou amplas investigações e, em novembro de 2024, a Polícia Federal emitiu um relatório abrangente acusando Bolsonaro e 36 aliados de tentarem “desmantelar violentamente” a ordem constitucional do Brasil.
O relatório detalhou supostos casos em que Bolsonaro e seus aliados discutiram a invalidação dos resultados eleitorais – ou mesmo o assassinato de Lula.
Em fevereiro passado, os promotores acusaram formalmente Bolsonaro e dezenas de co-réus por tentarem derrubar as eleições de 2022.
O seu julgamento ocorreu apesar da pressão internacional de alto nível de figuras de direita como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que impôs tarifas pesadas ao Brasil em agosto para protestar contra a acusação.
Ainda assim, em Setembro, Bolsonaro foi considerado culpado de cinco acusações, incluindo tentativa de golpe de Estado, conspiração armada, tentativa de abolição do Estado de direito, destruição de propriedade pública e danos ao património nacional.
Bolsonaro negou irregularidades durante todo o caso e classificou sua acusação como uma tentativa de silenciar um rival político.
Ele continua sendo uma figura popular na direita, e seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro, anunciou no mês passado sua intenção de desafiar Lula para a presidência em outubro próximo.
No mês passado, o Congresso brasileiro, liderado pelos conservadores, também aprovou um projeto de lei que poderia encurtar a pena de Bolsonaro, embora Lula tenha prometido vetá-lo.


