O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, criticou o que chamou de retorno de uma abordagem colonial em relação às nações em desenvolvimento durante uma cúpula na Colômbia.
Mas embora Lula não tenha mencionado o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nas suas observações, ele apontou para as ações empreendidas pela administração Trump, incluindo o sequestro, em 3 de janeiro, do líder venezuelano Nicolás Maduro e o bloqueio de combustível em Cuba.
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“Não é possível que alguém pense que é dono de outros países”, disse Lula, numa aparente referência à política dos EUA.
“O que estão fazendo com Cuba agora? O que fizeram com a Venezuela? Isso é democrático?”
Lula fez seus comentários na cúpula de sábado da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), que contou com um fórum de alto nível com delegados da África.
Ele disse aos delegados que os seus países já tinham sido saqueados em busca de ouro, prata, diamantes e minerais.
“Depois de tomar tudo o que tínhamos, agora eles querem possuir os minerais críticos e as terras raras que temos”, disse Lula, sem especificar quem seriam “eles”. “Eles querem nos colonizar novamente.”
O presidente brasileiro de esquerda também criticou a guerra em curso lançada pelos EUA e Israel contra o Irã.
Ele traçou um paralelo entre esse conflito, que começou em 28 de Fevereiro, e a guerra do Iraque liderada pelos EUA, que começou em 2003 sob o pretexto de eliminar “armas de destruição maciça”.
“O Irão foi invadido sob o pretexto de que o Irão estava a construir uma bomba nuclear”, disse Lula, antes de se voltar para a campanha dos EUA no Iraque, que resultou no derrube do líder iraquiano Saddam Hussein.
“Onde estão as armas químicas de Saddam Hussein?” Lula perguntou. “Onde eles estão? Quem os encontrou?”
Uma história de intervenção
A história de intervenção de Washington na América Latina remonta a mais de 200 anos, quando o então presidente James Monroe reivindicou o hemisfério como parte da esfera de influência dos EUA.
Embora o envolvimento aberto e em grande escala dos EUA na região tenha diminuído principalmente após a Guerra Fria, Trump reacendeu o legado.
Desde que assumiu o cargo no ano passado, Trump lançou ataques em barcos contra alegados traficantes de droga nas Caraíbas, ordenou um bloqueio naval às exportações de petróleo venezuelanas e envolveu-se na política eleitoral nas Honduras e na Argentina.
Trump impôs uma tarifa de 50 por cento sobre produtos brasileiros no ano passado, citando como motivo o julgamento contra o ex-presidente do país, Jair Bolsonaro. Os EUA também demonstraram grande interesse nos depósitos de terras raras do Brasil.
Depois, em 3 de janeiro, as forças dos EUA raptaram e prenderam o líder venezuelano Nicolás Maduro, levando-o de avião para Nova Iorque para enfrentar acusações de tráfico de drogas e armas.
Embora tais ações tenham entusiasmado os líderes de direita em todo o continente, elas suscitaram receios entre os políticos de esquerda, que expressaram graves preocupações sobre o que consideram ser intimidação dos EUA.
“Não podemos permitir que ninguém interfira e viole a integridade territorial de cada país”, disse Lula no sábado.
Frustração com a ONU
Lula, que disse que concorrerá a um quarto mandato não consecutivo nas próximas eleições de outubro no Brasil, também criticou as Nações Unidas pela sua incapacidade de parar múltiplos conflitos em todo o mundo.
“O que estamos a testemunhar é o fracasso total e absoluto das Nações Unidas”, disse ele, apontando para as situações em Gaza, na Ucrânia e no Irão.
Ele apelou, mais uma vez, à reforma do Conselho de Segurança da ONU, que tem o mandato de garantir a paz e a segurança internacionais. Mas não conseguiu parar grandes conflitos devido ao poder de veto dos seus cinco membros permanentes: China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos.
Houve décadas de esforços para reformar o Conselho de Segurança. Mas todos eles não tiveram sucesso.
O presidente colombiano, Gustavo Petro, que a Administração Antidrogas dos EUA designou como “alvo prioritário”, repetiu a condenação de Lula à ONU.
O corpo “está agindo na impotência, e não foi para isso que foi criado. Foi criado depois da Segunda Guerra Mundial precisamente para evitar guerras. E, no entanto, o que temos hoje é guerra”, disse Petro na cimeira.
Mas o mundo precisa que a ONU forneça soluções climáticas e reduza o aquecimento global, disse Petro.
“Quanto mais graves se tornam os problemas da humanidade, menos ferramentas temos para a ação coletiva. E esse caminho só leva à barbárie.”
Relativamente poucos presidentes e primeiros-ministros da América Latina e das Caraíbas participaram na cimeira na Colômbia, um sinal das profundas divisões do continente.
Estavam presentes os presidentes do Brasil, Uruguai, Burundi e Colômbia, bem como os primeiros-ministros da Guiana e de São Vicente e Granadinas, juntamente com vice-ministros, ministros das Relações Exteriores e embaixadores.



