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A política europeia de Israel enfrenta um teste democrático

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Mais de 457 mil cidadãos europeus assinaram uma petição apelando à suspensão total do acordo de parceria da União Europeia com Israel no primeiro mês da iniciativa.

Lançada em 13 de janeiro como uma iniciativa de cidadania europeia formalmente registada, a petição deve atingir 1 milhão de assinaturas de pelo menos sete estados membros da UE até 13 de janeiro do próximo ano para ser considerada formalmente pela Comissão Europeia. Não é um apelo simbólico. É um mecanismo integrado no quadro democrático da UE, concebido para traduzir a vontade pública em revisão institucional.

A velocidade e a distribuição geográfica desta mobilização são importantes. A exigência de suspensão do Acordo de Associação UE-Israel já não se limita às manifestações de rua ou aos círculos activistas. Entrou na arquitectura democrática formal da UE.

A petição pede a suspensão, alegando que Israel viola o artigo 2.º do acordo de associação, que condiciona a parceria ao respeito pelos direitos humanos e pelo direito internacional. Como afirma a iniciativa, “os cidadãos da UE não podem tolerar que a UE mantenha um acordo que contribui para legitimar e financiar um Estado que comete crimes contra a humanidade e crimes de guerra”. O texto cita ainda assassinatos de civis em grande escala, deslocamentos, destruição de hospitais e infra-estruturas médicas em Gaza, o bloqueio da ajuda humanitária e o incumprimento das ordens do Tribunal Internacional de Justiça.

Até segunda-feira, a iniciativa reuniu 457.950 assinaturas, mais de 45% do total exigido em apenas um mês. Os signatários vêm de todos os 27 estados membros da UE, sem exceção. Este não é um aumento regional. É continental.

A distribuição das assinaturas revela mais do que números brutos. Só a França conta com 203.182 signatários, quase 45% do total. Este número reflecte a longa tradição de mobilização solidária do país, as manifestações em massa sustentadas durante a guerra genocida em Gaza e o posicionamento claro dos principais actores políticos, como La France Insoumise. A França emergiu como o principal motor deste impulso institucional.

A Espanha segue-se com 60.087 assinaturas, enquanto a Itália se situa com 54.821, um número particularmente impressionante dada a presença de um governo de direita que apoia abertamente Israel. A Bélgica registou 20.330 assinaturas de uma população de cerca de 12 milhões, reflectindo um elevado envolvimento relativo. Na região nórdica, a Finlândia com 12.649 assinaturas, a Suécia com 15.267 e a Dinamarca com 8.295 mostram uma participação sustentada. A Irlanda alcançou 11.281 assinaturas de uma população de pouco mais de cinco milhões.

Vários destes países já ultrapassaram os limiares nacionais exigidos pelas regras da UE. França, Espanha, Bélgica, Finlândia, Irlanda, Itália e Suécia ultrapassaram o número mínimo necessário para que as suas assinaturas sejam contabilizadas para o requisito de sete Estados-membros. Este é um desenvolvimento crítico. Significa que a iniciativa não está apenas a acumular volume, mas também já satisfaz os critérios de legitimidade geográfica incorporados no mecanismo de iniciativa de cidadania europeia.

Os Países Baixos, com 20.304 assinaturas, estão a aproximar-se do seu limiar nacional. A Polónia, com 22.308 assinaturas, reflecte um envolvimento que se estende para além da Europa Ocidental. Mesmo em estados mais pequenos como a Eslovénia com 1.703 assinaturas, o Luxemburgo com 900 e Portugal com 4.945, a participação é visível e mensurável.

A Alemanha apresenta um contraste revelador. Apesar de ser o Estado-Membro mais populoso da UE e o local de algumas das maiores manifestações contra a campanha genocida de Israel em Gaza, a petição reuniu 11.461 assinaturas alemãs, apenas 17 por cento do limite nacional da Alemanha de 69.120. Esta lacuna entre a mobilização visível nas ruas e a participação institucional formal realça o ambiente político e jurídico específico na Alemanha, onde a expressão pró-palestiniana enfrentou restrições e onde sucessivos governos mantiveram um apoio quase incondicional a Israel como uma questão de política estatal. A percentagem relativamente baixa não sinaliza ausência de dissidência. Pelo contrário, ilustra as restrições estruturais dentro das quais opera a dissidência. O facto de mais de 11.000 cidadãos terem registado formalmente o seu apoio indica que o envolvimento institucional está a ocorrer mesmo sob condições de pressão política.

Tomados em conjunto, estes padrões revelam algo mais profundo do que o impulso de uma petição. Ao longo de mais de dois anos de guerra genocida, limpeza étnica e destruição sistemática da vida civil em Gaza, a solidariedade em toda a Europa não se dissipou. Passou de slogans de protesto e mobilização de rua para um instrumento democrático formal que exige resposta institucional.

As petições não alteram automaticamente a política. A Comissão Europeia não está legalmente obrigada a suspender o acordo de associação, mesmo que a iniciativa acabe por atingir 1 milhão de assinaturas. Mas as implicações políticas são significativas. Uma iniciativa bem sucedida obrigaria formalmente a Comissão a responder a uma exigência baseada na própria cláusula de direitos humanos da UE. Demonstraria que o apelo à suspensão está enraizado num apoio público amplo e mensurável em vários Estados-Membros.

A União Europeia há muito que se apresenta como um poder normativo comprometido com o direito internacional e os direitos humanos. O artigo 2.º dos seus acordos de parceria é fundamental. Se centenas de milhares, e potencialmente mais de um milhão, de cidadãos europeus insistirem que este princípio seja aplicado de forma consistente, as instituições da UE enfrentarão um teste de credibilidade.

Esta petição não é apenas uma contagem de assinaturas. É um índice de vontade política. Mostra que em França, Espanha, Bélgica, Itália, Irlanda, nos estados nórdicos e noutros países, os cidadãos estão a invocar os próprios mecanismos democráticos da UE para exigir responsabilização.

Quer a iniciativa atinja finalmente 1 milhão, uma realidade já está estabelecida. A exigência de suspensão da parceria UE-Israel entrou na corrente sanguínea institucional da Europa. Não pode mais ser descartada como retórica marginal. Está inserido no processo democrático formal da União e isso marca um desenvolvimento significativo na resposta da Europa ao genocídio em Gaza.

As opiniões expressas neste artigo são do próprio autor e não refletem necessariamente a posição editorial da Al Jazeera.

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