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O diretor de fotografia de ‘Train Dreams’ revela os segredos por trás da maravilha natural do filme

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O diretor de fotografia de 'Train Dreams' revela os segredos por trás da maravilha natural do filme

A princípio, Clint Bentley não tinha certeza se Adolpho Veloso se identificaria com “Train Dreams”, adaptação do romance de 2011 de Denis Johnson. A história era distintamente americana, sobre Robert Grainier, um madeireiro e ferroviário que vivia e trabalhava em Washington na virada do século. Veloso cresceu em São Paulo, muito longe do noroeste do Pacífico, mas o roteiro tocou o diretor de fotografia, que trabalhou pela primeira vez com Bentley em “Jockey”, de 2021.

“É sobre um cara que trabalha fora de casa por vários meses com um monte de gente que ele nunca conheceu antes e que talvez nunca mais veja”, diz Veloso, falando do Soho Hotel, em Londres, no início de fevereiro. “Quando ele volta para casa, é sempre difícil se reconectar com sua casa e sua família, com todas as coisas que mudaram enquanto ele estava fora. Essa é basicamente a minha vida.”

Veloso percebeu que, se conseguisse se relacionar, “todos no mundo poderiam se conectar a isso”. “Mesmo sendo uma peça de época, é muito contemporânea”, diz ele. “O principal objetivo para mim era tornar esses temas o mais simples possível. Queríamos remover todas as camadas que as peças de época normalmente têm para permitir que a distância do público aos personagens fosse encurtada.”

Às vezes, Veloso fazia isso literalmente, aproximando a câmera dos personagens. Mas o elemento mais importante foi a luz natural. Há apenas uma cena em “Train Dreams” que usa luz artificial, um momento crucial em que Robert (Joel Edgerton) atravessa uma parede de chamas. Fora isso, Veloso contou com o sol, a luz das velas e o fogo para iluminar seus chutes. Exigia um cronograma de filmagem específico, mas também um certo grau de flexibilidade.

“Estávamos filmando tudo no local, para podermos posicionar os cenários em locais que fossem melhores para a iluminação”, diz Veloso. “Mas Clint estava sempre aberto a mudar as coisas. Se esperávamos um dia ensolarado e de repente está chovendo, então por que não? Vamos fazer a cena dessa maneira agora. Muitas vezes essas pequenas surpresas e essas adaptações acabariam sendo melhores do que planejamos.”

“Train Dreams” foi filmado no estado de Washington em florestas reais. Veloso queria tratar o mundo natural como um personagem, e não como um cenário, tornando-o tão importante quanto Robert ou sua esposa, Gladys (Felicity Jones). Propositalmente não há tiros de drones.

Felicity Jones e Joel Edgerton em “Train Dreams”.

(Netflix)

“Sempre que fotografávamos a natureza, enquadrávamos-a da mesma forma que enquadraríamos uma pessoa”, diz Veloso. “Sempre que filmávamos Robert, deixávamos muito espaço ao redor dele para transmitir o poder que o ambiente tem sobre nós e o que sentimos, e vice-versa. Às vezes é apenas uma foto por cima do ombro, como se fosse uma conversa silenciosa entre ele e a natureza.”

Capturar as enormes árvores que existiriam no início do século XX foi um desafio. A produção foi para parques protegidos, onde era preciso ter cuidado para não afetar o meio ambiente. “Como você grava um filme em que eles deveriam estar cortando aquelas árvores, mas não conseguem nem chegar perto delas?” Veloso diz. “Foi quase como fazer acrobacias.”

Bentley encontrou uma instalação madeireira que permitiria à equipe capturar o corte real das árvores. Em uma das cenas de abertura, Veloso colocou uma câmera em uma árvore pouco antes de ela ser derrubada. “Usamos uma câmera que tínhamos de sobra”, diz Veloso. “Mas tudo correu bem e a câmera sobreviveu.”

O filme segue Robert durante a maior parte de sua vida. Para denotar a passagem do tempo e a falibilidade da memória, Veloso mudou a forma como filmava o personagem em cada época. A infância de Robert foi filmada para evocar imagens estáticas, como se ele estivesse apenas se lembrando de fotografias que viu. Sua idade adulta incorporou uma gama mais ampla de técnicas. No final, Veloso trouxe uma Steadicam para indicar que Robert encontrou mais paz em seus últimos anos.

A filmagem no local e a dependência da luz natural estavam entre as técnicas que Veloso empregou em “Train Dreams”.

(Lauren Fleishman/For The Times)

“Tínhamos essas regras que seguimos ao longo do filme, mas tentamos ter certeza de que elas não estavam impondo nada que pudesse parecer errado”, diz Veloso. “A gente improvisava muito, então sempre tínhamos as regras como orientação.”

As cenas em que Robert está junto com Gladys e seu filho têm iluminação quente ou a névoa da hora dourada. “Todas essas memórias são provavelmente mais doces do que o que realmente aconteceu”, diz Veloso. “A primeira vez que há um sol realmente marcante no filme, onde tudo parece duro, é quando ele chega em sua cabana depois do incêndio e tudo está queimado e só há cinzas.”

As cenas finais, de Robert voando pela primeira vez em um avião, foram capturadas com truques práticos. Veloso conectou câmeras a um avião real para filmar a paisagem, mas Edgerton não foi autorizado a subir por questões de seguro. Em vez disso, a tripulação construiu uma cabine em um gimbal a vários metros de altura e manobrou os atores pelo céu como se estivessem realmente voando.

“É uma das cenas mais importantes do filme, então não poderíamos usar tela verde”, diz Veloso. “Isso tinha que parecer tão natural quanto todo o resto. Foi uma grande colaboração de todos os departamentos para que funcionasse. A interação da luz é real e o céu é real. Tinha que parecer tão conectado quanto todo o resto para que o final funcionasse.”

Ser reconhecido por seu trabalho em “Train Dreams” é significativo para Veloso não apenas por seu trabalho árduo e visão. Ele também agradece por fazer parte de uma onda de cineastas brasileiros que vem ganhando reconhecimento nos últimos anos.

“O Brasil sempre teve filmes incríveis, cineastas incríveis e cineastas incríveis trabalhando fora do Brasil, em outros países”, diz ele. “Mas é incrível agora celebrar a arte da mesma forma que costumávamos celebrar apenas o futebol. Então é ótimo fazer parte disso, e também é uma loucura ao mesmo tempo. É impressionante e surpreendente. Definitivamente mudou muitas coisas, e espero que isso signifique mais trabalho e um trabalho ao qual eu possa estar realmente conectado.”

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