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Leon Le sobre a reformulação do Vietnã além do olhar ocidental: ‘Histórias vietnamitas foram contadas através de lentes datadas, desrespeitosas e ignorantes’

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Leon Le sobre a reformulação do Vietnã além do olhar ocidental: 'Histórias vietnamitas foram contadas através de lentes datadas, desrespeitosas e ignorantes'

Para o diretor Leon Le, o problema não é a falta de histórias sobre o Vietnã, mas sim a forma como elas são contadas. “As histórias vietnamitas foram contadas através de lentes muito desatualizadas, muito desrespeitosas e ignorantes”, diz ele.

Seu segundo filme, “Ky Nam Inn”, em competição na seção de longas-metragens do Festival Internacional de Cinema de Friburgo, retorna à Saigon dos anos 1980, seguindo uma tradutora, uma viúva de guerra e seu filho nos anos após a reunificação.

Para Le, o filme tem menos a ver com o enredo do que com o que vem depois do conflito. “Não é apenas uma história de amor entre um homem e uma mulher”, diz ele. “É uma reconciliação entre o vencedor e o perdedor, entre o Norte e o Sul”, acrescenta. “O que vamos fazer agora, depois que a guerra terminar, depois que os estrangeiros partirem e tivermos que viver uns com os outros novamente?”

Essa ideia permeia a estrutura do filme. O personagem central atua como tradutor, adaptando o clássico francês “O Pequeno Príncipe” para o vietnamita. “Assim que decidimos por ‘O Pequeno Príncipe’, tudo começou a dar certo”, diz Le. “A jornada de Khang começou a ecoar o que o Pequeno Príncipe está passando.” A escolha também reflete o descolamento de camadas históricas. “Podemos contribuir não apenas para o que a guerra americana deixou para trás, mas também para a colonização e para o que os franceses deixaram para trás.”

Para construir a identidade visual do filme, Le, que deixou o Vietnã aos 13 anos, recorre a suas próprias memórias, ainda intactas décadas depois. “Ainda me lembro de uma tarde muito particular, quando o sol estava todo rosa e as crianças empinavam pipas”, diz ele. “Posso me transportar imediatamente de volta para aquele momento.” “Não creio que seja uma coisa consciente”, acrescenta. “Eu simplesmente sinto que é assim que deveria ser.”

“Ky Nam Inn” aposta na especificidade, seja desde a disposição dos objetos em uma sala até os gestos de seus personagens, detalhes que o diretor diz terem se destacado para o público internacional. Para Le, porém, essa atenção é simplesmente uma parte natural do processo. “Isso é apenas uma narrativa básica”, observa ele.

Essa atenção à experiência vivida é central na forma como ele aborda a narrativa. “Para quem estou fazendo este filme?” Le ponderadores. “Tem que ser primeiro para o público vietnamita.” Tentar explicar detalhes culturais para os espectadores ocidentais, acrescenta, muitas vezes os distorce. “Ninguém jamais diria: ‘O povo vietnamita tem esse ditado’”, explica ele. “Você não apresenta sua vida assim. Você não explica sua cultura para si mesmo.”

Ele também aponta para uma questão mais ampla. “Não há histórias suficientes sobre o Vietnã para que o público diferencie entre o que é real e o que é apenas uma versão”, diz Le. “O que quer que você divulgue, as pessoas vão pensar que é real.” Isso, diz ele, aumenta os riscos. “Há uma responsabilidade quando você conta a história de um grupo de pessoas que não é popular.”

A exibição em Friburgo, um festival há muito dedicado ao cinema global além do mainstream ocidental, oferece um tipo diferente de ressonância para Le. “Não estamos sozinhos”, diz o diretor. “Há pessoas que querem ouvir nossas vozes.”

Mas esse reconhecimento não é o que o move. “Com meu primeiro filme e este filme, não ganhei nenhum dinheiro, nenhum salário, nem um único centavo”, diz ele. “Não há razão para eu fazer nada disso se não for por amor.”

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