A experiência do animador japonês Yoshitoshi Shinomiya como pintor fica claramente evidente em sua estreia na direção de longas-metragens “A New Dawn”, representando o Japão na competição principal do Festival de Cinema de Berlim. O filme é lindo de se ver, prestando atenção a cada pequeno detalhe pintado na tela, enquanto os fundos da ação parecem quadros estáticos que poderiam estar em um museu. A história que mostra essa bela arte, porém, faz menos sucesso que o visual, dependendo demais do diálogo e da exposição. Ainda assim, “A New Dawn” marca uma entrada forte no mundo da animação, e promete muito mais de Shinomiya. Talvez da próxima vez ele possa colaborar com um roteirista experiente.
Os protagonistas de “A New Dawn” são dois irmãos, de temperamentos muito diferentes. O mais velho é Senataro, a quem todos chamam de Chichi (dublado por Miyu Irino), e o mais jovem Keitaro (Riku Hagiwara). Teimoso e impetuoso, Keitaro se apega à fábrica rural de fogos de artifício de seu falecido pai, tentando mantê-la funcionando enquanto enfrenta o despejo para abrir caminho à gentrificação. Enquanto isso, Chichi mudou-se para Tóquio e tornou-se funcionário público. Para convencer seu irmão a ir embora, ele convida seu amigo de infância e ex-vizinho Kaoru (Kotone Furukawa) para uma visita à sua antiga casa. A história se passa em dois dias, com quatro anos de intervalo: o dia do despejo no presente, com flashbacks de outro, enquanto os três diretores relembram sua amizade formativa e segredos relacionados a fogos de artifício contados a eles pelo já falecido pai dos irmãos.
Nas cenas do dia do despejo, Keitaro tenta, com a ajuda de Kaoru, montar e lançar a derradeira queima de fogos de artifício, maior e mais bonita do que qualquer outra — à qual ambos continuam se referindo como “Shuhari”, uma palavra japonesa composta por três caracteres que significam respectivamente “proteger”, “quebrar” e “separar”. Também poderia ser uma metáfora para qualquer que seja o objetivo final de alguém, algo que o pai dos irmãos nunca foi capaz de alcançar. Assim, o filme se torna uma corrida contra o tempo, enquanto eles tentam montar essa exibição enquanto as autoridades municipais se aproximam com suas escavadeiras para destruir a fábrica. Ao mesmo tempo, Chichi está tendo uma crise de consciência, pensando que traiu o pai e o irmão.
Cada lindo quadro de “A New Dawn” é meticulosamente pintado, com cores de alguma forma vivas e suaves. A última impressão é reforçada pela abundância de luz de fundo, mas as imagens permanecem impressionantes. Shinomiya presta atenção detalhada a tudo na tela, elaborando não apenas os rostos e emoções dos personagens, mas também todas as outras criaturas, formas naturais de relevo e céus deste mundo da história. Desde pequenos insetos como moscas e borboletas nas bordas do quadro, até grandes montanhas, nuvens cheias de chuva e até grandes máquinas de demolição — tudo é animado com precisão e beleza. Há montagens que parecem pinturas de tirar o fôlego, mas também há engenhosidade em todos os aspectos menos espetaculares da animação: uma cena em que Chichi fica bêbado é representada em estruturas de brinquedo menos pictóricas e mais realistas que revelam seu estado de espírito confuso.
No entanto, toda esta beleza, em última análise, não salva uma narrativa confusa. Shinomiya quer contar uma história sobre a sabedoria que passa entre gerações, mas seus personagens se perdem em conversas repetidas que nunca iluminam suas personalidades além de traços gerais e não conseguem levar a narrativa adiante. Os fogos de artifício climáticos, que o roteiro vem construindo durante quase todos os 76 minutos de duração, chegam tarde demais, com pouca diferenciação do resto do visual. Não posso deixar de parecer uma decepção, mesmo que cada quadro até agora tenha sido lindo além das palavras.



