Messi e Argentina se recusam a aceitar o óbvio na vitória milagrosa sobre o Egito

Algumas linhas sobrevivem ao momento que as criou. Após o ataque à base naval americana em Pearl Harbor, o presidente Franklin D. Roosevelt passou a encarnar uma relutância em aceitar a impossibilidade, um sentimento muitas vezes destilado numa ideia simples: não me diga que isso não pode ser feito.

O desporto não é guerra, mas em Atlanta a Argentina encontrou a sua própria versão, muito menor, desse desafio.

O Egito deu a Lionel Messi e seus companheiros todos os motivos para aceitar a noite como um daqueles finais brutais que o esporte reserva até mesmo para suas maiores figuras. O atual campeão estava com dois gols a menos, o relógio corria cruelmente e a noite de Messi já carregava o tipo de imagens que podem ficar gravadas na memória. Um pênalti perdido. Uma cobrança de falta contra a trave. Uma equipe azul e branca que não parece derrotada em um momento, mas lentamente drenada por muitos.

Então a Argentina fez o que tantas vezes fez nos anos de Messi. Parou de tratar o tempo como um limite e passou a tratá-lo como um desafio.

A vitória por 3 a 2 sobre o Egito nas oitavas de final não foi um desempenho limpo. Não era o campeão movendo-se suavemente nas marchas. Foi frenético, falho e às vezes desesperador. Mas foi também isso que fez com que tudo parecesse tão verdadeiro para esta Argentina. Há times que vencem porque impõem ordem. A Argentina, em noites como esta, vence porque encontra a emoção à beira da desordem.

A recuperação começou com Cristian Romero, o que parecia certo. Cuti nunca usou a camisa nacional levianamente. Mesmo quando o ritmo a nível de clube nem sempre foi bom, a Argentina muitas vezes extraiu dele algo mais primitivo. Ele joga pela Albiceleste como se defender não fosse um trabalho, mas uma declaração. Quando seu gol chegou, fez mais do que reduzir o déficit. Mudou o ar dentro do estádio.

O Egito, até então, tinha sido corajoso, perspicaz e próximo de uma noite famosa. Isso fez a Argentina perseguir sombras e depois perseguir o jogo. Carregou a ameaça de Mohamed Salah, a energia dos homens que pressentem a história e a teimosia de uma equipa que não quer ser deslumbrada pela reputação. Durante longos períodos, o Egito não parecia um time esperando a queda da Argentina. Parecia que alguém estava empurrando para lá.

Mas a intervenção de Romero deu à Argentina a oportunidade de acreditar novamente.

A crença, nesta equipa, quase sempre passa por Messi.

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O segundo gol pertencia à parte dele que nunca precisou de explicação. A bola estava alta, estranha e cruel, caindo de uma altura que faria a maioria dos jogadores controlar primeiro e pensar depois. Messi não fez nada disso. O instinto assumiu. O pé esquerdo, velho instrumento de punição, bateu na bola como se esperasse exatamente esse incômodo.

Por mais de duas décadas, esse pé atormentou os defensores, transformou os goleiros em espectadores e distorceu a lógica. Em Atlanta, não perdeu o momento. O ataque subiu ferozmente e bateu no teto da rede. Sob o teto fechado, o som parecia multiplicar-se. O estádio não apenas comemorou; irrompeu com o choque de uma multidão que acabara de observar a mudança da maré.

O rosto de Messi contou sua própria história. Este não era o sorriso de um homem que acrescentava mais um gol a uma longa coleção. Foi lançado. Redenção, talvez. Um lembrete de que mesmo aos 39 anos, depois de tudo, ele ainda poderia arrancar um fósforo das mãos de quem pensava que o tinha tirado dele.

No entanto, a noite da Argentina não foi salva apenas por Messi, e esse é o objectivo desta equipa.

Durante anos, o país esperou por uma geração que não apenas jogasse com Messi, mas que jogasse por ele sem diminuir na sua presença. Essa geração agora o cerca. Ela ataca por ele, corre por ele, luta por ele e, quando necessário, escreve suas próprias falas em sua história.

A próxima geração: os jogadores argentinos comemoram juntos, um time que não se contenta mais em apenas jogar ao lado de Lionel Messi, mas está determinado a proteger e estender sua história na Copa do Mundo.

A próxima geração: os jogadores argentinos comemoram juntos, um time que não se contenta mais em apenas jogar ao lado de Lionel Messi, mas está determinado a proteger e estender sua história na Copa do Mundo. | Crédito da foto: AFP

A próxima geração: os jogadores argentinos comemoram juntos, um time que não se contenta mais em apenas jogar ao lado de Lionel Messi, mas está determinado a proteger e estender sua história na Copa do Mundo. | Crédito da foto: AFP

Lautaro Martinez entrou e deu à Argentina a referência que faltava no ataque. Recém-chegado de mais uma temporada exigente no Inter de Milão, ele trouxe o tipo de movimento que perturba os defensores cansados ​​e a presença que obriga a defesa a pensar em mais do que Messi. Seu valor não estava apenas nos toques, mas na ocupação. Ele puxou o Egito para lugares desconfortáveis ​​e ajudou a transformar a pressão tardia da Argentina de esperança em ameaça.

Leandro Paredes também teve seu momento, do tipo que raramente sobrevive nas manchetes de uma reviravolta. Perto da marca dos 90 minutos, com o Egito quebrando e Emiliano Martinez exposto atrás dele, Paredes era a última barreira externa da Argentina. Ele se manteve firme, esticou-se no instante certo e eliminou o perigo.

Depois veio Enzo Fernández.

Havia poesia nisso. Quando adolescente, Enzo escreveu uma vez para Messi quando seu ídolo se afastou da seleção nacional, pedindo-lhe que voltasse. Ele não era um companheiro de equipe, nem um vencedor da Copa do Mundo, nem um meio-campista que carregava as expectativas de um país. Ele era um menino observando o jogador que amava caminhando em direção à saída e implorando para que ele não fosse.

Palavra final: Enzo Fernandez marcou o gol da vitória contra o Egito.

Palavra final: Enzo Fernandez marcou o gol da vitória contra o Egito. | Crédito da foto: AP

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Palavra final: Enzo Fernandez marcou o gol da vitória contra o Egito. | Crédito da foto: AP

Na terça-feira, Enzo escreveu outra carta de amor.

Essa veio no segundo poste, já nos acréscimos, com o torneio da Argentina ainda tremendo. Sua cabeçada carregava mais que técnica. Carregou a devoção de uma geração que cresceu com Messi, venceu com ele e agora parece determinada a mantê-lo neste palco o máximo que puder.

É por isso que as celebrações importavam. A Argentina joga pela camisa; ninguém pode duvidar disso. Está presente no rugido de Romero, na entrada de Lisandro, na corrida de Lautaro, nos substitutos correndo como se a partida pertencesse a todos os jogadores do elenco. Mas também joga para Messi. Não de uma forma que enfraqueça a equipe, mas de uma forma que a vincule.

Quando seus companheiros o jogaram para o alto, não foi apenas uma celebração da vitória. Foi um ato de proteção. Eles garantiram que Messi sairia do Estádio de Atlanta com a cabeça erguida, não como o grande homem cujo pênalti falhado marcou o fim, mas como o capitão cujo pé esquerdo mais uma vez conseguiu alcançar o impossível.

O Egito merecia ternura na derrota. Chegou perto o suficiente de um resultado famoso para que a derrota parecesse quase injusta. Fez o campeão mundial sofrer, fez Messi errar, fez a Argentina enfrentar sua própria vulnerabilidade. Durante grande parte da noite, foi a melhor história.

Mas a Argentina ainda riu por último.

É isso que os campeões fazem, às vezes. Nem sempre com controle. Nem sempre com beleza. Às vezes, eles sobrevivem porque um líder recusa o óbvio e porque os homens ao seu redor decidem que a recusa é suficiente para seguir.

Não diga a Messi que isso não pode ser feito.

Não conte à Argentina também.

Publicado em 08 de julho de 2026

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