Caracas, Venezuela – À beira de uma estrada movimentada, à espera de um ônibus em direção a Caracas, Mairet Perez folheia seu telefone, apontando para colegas, amigos e familiares de seu estado natal, La Guaira.
“Se foi”, ela diz com naturalidade, mordendo o lábio, antes de passar para outras fotos que mostram cabeças de concreto quebradas.
Abaixo das lajes estão alguns de seus corpos, explica ela. Dezenas de pessoas estão desaparecidas – ou mortas.
O número de mortos após os dois terremotos que atingiram a Venezuela na noite de quarta-feira está chegando a 1.500, com cerca de 50 mil pessoas registradas como desaparecidas em um site de crowdsourcing.
Na longa viagem desde a fronteira com a Colômbia, cheio de armas e suprimentos para as pessoas afetadas, Perez recebe um telefonema – uma notícia mais devastadora. O pai de sua filha, a esposa dele e o filho de nove anos foram encontrados. Eles não conseguiram.
“Todos em La Guaira estão procurando e desenterrando pessoas com as próprias mãos”, diz Perez. “E o governo? O que eles fizeram? Nada!”
Ela acrescenta que ainda há áreas onde o governo ainda nem acessou.
Embora o clima inicial na Venezuela após o terramoto tenha sido de pânico e angústia, a frustração e a raiva aumentam agora com a resposta do governo.
Para a presidente interina Delcy Rodriguez, o desastre representa o maior desafio da sua presidência até agora. À medida que o número de mortos aumenta e os esforços de resgate continuam, ela enfrenta uma pressão crescente para mostrar que o seu governo pode coordenar uma resposta eficaz.
Nas horas seguintes aos terremotos, Rodriguez declarou estado de emergência, apresentou suas condolências àqueles que perderam entes queridos e apelou por assistência internacional.
Mas o que veio a seguir foi o que muitos observadores descrevem como uma resposta de emergência lenta e desigual.
“A resposta do governo vai desde totalmente inexistente até, na melhor das hipóteses, completamente inadequada”, disse Phil Gunson, analista sénior e especialista em Venezuela do International Crisis Group, um think tank sem fins lucrativos.
Explicou que, ao longo da última década, a crise económica da Venezuela — enraizada na má gestão, corrupção e sanções — enfraqueceu gravemente os sistemas de resposta a emergências do país, juntamente com os serviços públicos de saúde, água e electricidade.
“Agora faltam-lhes orçamentos, pessoal, equipamento, liderança e planeamento”, disse Gunson.
As equipes internacionais de ajuda e resgate preencheram a lacuna. Mais de 20 equipes já chegaram, inclusive de El Salvador, Espanha, Catar e Estados Unidos.
Mas Gunson disse que isso não é suficiente para dar legitimidade ao governo Rodriguez durante a crise.
“Mesmo com a ajuda dos EUA, o governo é incapaz de demonstrar eficiência ao lidar com a catástrofe”, disse ele.