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Crítica de ‘Seis meses em um prédio rosa e azul’: um filme exuberante e poético enraizado em memórias reais

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'Seis meses em um prédio rosa e azul' aprofunda a exploração de segredos, memória e infância do mexicano Bruno Santamaría Razo

Para seu primeiro longa narrativo, o diretor mexicano Bruno Santamaría Razo – que já fez documentários – escolhe uma memória pessoal. “Seis Meses num Edifício Rosa e Azul” inspira-se na própria vida do cineasta e, em particular, na altura em que completou 11 anos e o seu pai foi diagnosticado com VIH. Retrato de uma família, um estudo da crescente identidade queer e um instantâneo do México dos anos 1990, o filme consegue ser uma bela homenagem do cineasta aos seus pais, bem como um relato ficcional e emotivo de um ponto de viragem na sua vida.

Em “Seis Meses em um Prédio Rosa e Azul”, a história do filho reflete a do pai. Em sua festa de 11 anos, quando todos os convidados são convidados a se fantasiar do outro gênero, Bruno (Jade Reyes) sente sentimentos estranhos e ternos por seu melhor amigo Vladimir (Eduardo Gómez). Na mesma festa, seu pai, Mundo (Lázaro G. Rodríguez), recebe a notícia de que algo deu “anormal” em seu recente exame de sangue. O filme acompanha pai e filho enquanto eles lidam com essas novas realidades em suas vidas. Atuando como eixo da família e ponte entre marido e filho, está a mãe de Bruno, Diana (Sofía Espinosa), a mais fundamentada do trio. Enquanto Mundo foge para o seu trabalho artístico como ilustrador e Bruno se apaixona, Diana tenta pragmaticamente se preparar para um futuro que pode não incluir o marido.

Começando pela frivolidade e alegria daquela festa à fantasia de abertura, Razo retrata uma família aglomerada de amores. Não há julgamento e às vezes até limites, pois os vemos compartilhando o mesmo pequeno banheiro, mostrando sua relação íntima. Mundo e Diana têm um acordo, por isso, embora o diagnóstico seja devastador, não é uma grande surpresa. Bruno idolatra o pai e quer ser ilustrador como ele. Ambos são sonhadores, não totalmente presentes no mundo vivido com o resto da família e da comunidade.

Razo retrata o mundo de Bruno com mais fantasia do que realidade. Embora pareça enraizado em memórias específicas que ele possa ter de sua infância, há um efeito lúdico e tecnicolor que o torna extravagante – como quando Bruno e Vladimir entram em um ensaio na igreja e, do nada, uma drag queen com lantejoulas brilhantes chama sua atenção. Ou quando Vladimir demonstra como dar beijo francês no braço de Bruno. Ambos os casos são retratados como experiências religiosas, abrindo os olhos de um jovem para um mundo que ele nunca soube que existia.

Em contraste, os momentos de Bruno com o pai carregam tons melancólicos. Bruno solicita as aquarelas de Mundo, o que implica que ele deseja herdá-las, e a paleta do filme muda de cena para cena. Como o título indica, o mundo de Bruno é cheio de cores, significando a exuberância das emoções que ele sente ao descobrir sua sexualidade e se apaixonar pelo amigo. O mundo de Mundo e Diana é mais austero, com as cores despojadas para mostrar o peso das fragilidades da vida do casal. O que Razo faz de melhor, porém, é preencher a moldura com imagens indeléveis que poderiam ficar sozinhas como pinturas: Bruno, sua mãe e um amigo da escola em um carro cheio de sacolas de compras multicoloridas, ou o rosto de Bruno iluminado de alegria, as cores de sua camisa combinando com uma pintura na parede, ambos servindo de moldura para seu sorriso.

Razo, porém, não esquece suas raízes no cinema vérité. “Seis Meses em um Prédio Rosa e Azul” começa com o cineasta entrevistando sua mãe. Mais tarde, Razo aparece na tela para fazer seu próprio relato daquela época de sua vida. O elenco dos atores que interpretam as versões mais jovens das pessoas reais é tão certeiro que as cenas de ficção combinam perfeitamente com as entrevistas, enquanto o filme é salpicado de fragmentos de documentários educativos sobre a AIDS da época.

Tudo isto confere a “Seis Meses num Edifício Rosa e Azul” uma fluidez fascinante, transitando entre a memória, a confissão e a reconstrução sem nunca parecer um exercício de jogo com a forma. Em vez disso, o filme parece um ato de lembrança, em vez de apenas uma história de maioridade. Filmado por Fernando Hernández García em Super 16mm, o filme tem tanto a sensação aconchegante dos vídeos caseiros antigos quanto a grandiosidade de um opulento melodrama da era de ouro.

Ao tentar unir suas memórias em uma narrativa, Razo consegue realizar algo mais singular. Ele captura aquela época estranha em que a fantasia infantil e a realidade adulta começam a se sobrepor, quando a alegria e a tristeza subitamente ocupam o mesmo espaço. Ele presta homenagem a si mesmo e à sua família, mas também faz um filme que certamente parecerá pessoal para muitos membros do público.

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