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A imaginação supera o orçamento em ‘The Blue Trail’, uma distopia de ficção científica sobre um idoso fugitivo

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A imaginação supera o orçamento em 'The Blue Trail', uma distopia de ficção científica sobre um idoso fugitivo

“The Blue Trail” é uma ficção científica lírica que se passa logo na próxima curva. Uma velha, Tereza (Denise Weinberg), chega em casa depois de seu trabalho na fábrica e encontra um funcionário do governo martelando louros gigantes de metal na porta de seu barraco. É uma homenagem aos idosos, explica a abelha operária anônima. Tereza fica rabugenta. “Desde quando envelhecer é uma honra?” ela bufa.

Suas preocupações estão corretas. Nesta versão do Brasil rural num futuro próximo, esses louros brilhantes desempenham para os idosos e pobres do país a mesma função que as estrelas douradas de Hitler para os judeus. Marcam que Tereza não é mais uma pessoa física. Ela foi reduzida a um número – 77 anos – e agora deve ser transportada de ônibus para um campo de aposentados, de onde ninguém jamais retorna. Não está muito claro como o exílio de Tereza ajuda seus conterrâneos, mas suspeito que começa com a doação de casa e emprego a alguém mais jovem.

Uma coisa que o envelhecimento e o fascismo têm em comum é que é difícil imaginá-los até que você seja pessoalmente afetado. Embora brusca e autossuficiente, Tereza começa o filme como uma pessoa obediente e de cabeça baixa. Ela nunca se opôs a que outros idosos fossem levados em caminhões com gaiolas tipo canil. “Carruagens enrugadas”, ela zomba. Podemos ver uma versão anterior de Tereza em sua filha Joana (Clarissa Pinheiro), uma mãe solteira atormentada que está tão exausta tentando sobreviver que não tem energia para questionar a autoridade. Mas Tereza está chateada porque finalmente a lei chegou para ela, insistindo para que ela colocasse fralda. “Você não precisa usá-los – você só precisa usá-los”, diz um funcionário público, capturando a indiferença do governo.

O cineasta Gabriel Mascaro tem pouco mais de 42 anos, jovem o suficiente para pensar como esse burocrata obcecado por banheiros que também não parece pensar que envelhecer vai acontecer com eles. (Se a maioria de nós realmente acreditasse nisso, faríamos mais agachamentos.) No entanto, Mascaro e seu igualmente jovem co-roteirista Tibério Azul são sábios além da idade. Esta é uma história de aventura rebelde e empática sobre uma avó que percebe que sua sociedade precisa aprender a pensar livremente. (Divulgação completa: no ano passado, fiz parte do júri do Festival de Cinema de Berlim que premiou “The Blue Trail” com nosso segundo prêmio principal, o Urso de Prata. Olhando pela segunda vez, continua fantástico.)

E assim a trama acompanha as aventuras episódicas de Tereza em fuga, escapando para navegar rio abaixo em busca de um avião em funcionamento. No caminho, ela encontra um barqueiro de coração partido (Rodrigo Santoro de “Westworld”), um vendedor de Bíblias (Miriam Socorrás) e um mecânico degenerado (Adanilo, que assim como os brasileiros Pelé e Ronaldo prefere usar o mesmo nome). Ela também tropeça em mais de uma dúzia de outros agentes de viagens e operadores de cassino em quem não se pode confiar que não a denunciarão ao estado. Seu visual evolui de uma engrenagem desgastada para uma vovó parecida com uma motociclista que pareceria natural andando nas costas do porco de Dennis Hopper. A partitura de jazz de Memo Guerra acrescenta outra camada lúdica de vida – é o barulho de uma boate bizarra onde o ar estremece com estranhas serras musicais.

Neste momento, quando um filme brasileiro chega à cidade, a aposta inteligente é vê-lo. Se o mundo fizesse uma festa, o Brasil e os EUA estariam no mesmo canto desabafando sobre a nossa vida doméstica. (Avaliando a resposta popular aos recentes thrillers económicos de Park Chan-wook e Bong Joon Ho, a Coreia do Sul também viria e sairia.) Tendo abandonado a ditadura nos anos 80 e rechaçado o aspirante a déspota Jair Bolsonaro da presidência e levado para a prisão, o país tem tanto para partilhar connosco que os filmes brasileiros “Ainda estou aqui” e “O agente secreto” foram nomeados para melhor filme no Oscar por dois anos consecutivos.

Qualquer pessoa com uma ideia de alto conceito e um baixo orçamento de produção deveria estudar como “The Blue Trail” cria a sensação de uma maquinaria fascista massiva com alguns centavos em adereços: uma dúzia de coletes de uniforme, um pouco de tinta spray e um alto-falante prometendo que tudo o que a nação está fazendo é por amor. Lá do alto, uma voz feminina gentil afirma que o Brasil quer “garantir a proteção daqueles que representam a história do nosso povo”. Essa linha deve realmente soar oca sobre as aldeias arrasadas das tribos amazônicas.

Mascaro iniciou sua carreira com documentários divertidos que interrogavam classe e privilégios, desde uma cobertura chique no Rio (“High-Rise” de 2009) até um obcecado por reality shows em uma favela do Recife (“Av. Brasília Formosa”). Em seu lançamento de 2012, “Housemaids”, Mascaro deu câmeras a sete adolescentes e pediu-lhes que registrassem como tratavam seus ajudantes. Ele tem a confiança necessária apenas para enfeitar um pouco sua nova distopia, deixando a escala da crença crescer sobre você quando, digamos, um vendedor de tigela de açaí casualmente pede seus papéis a Tereza. A simplicidade da sua execução sublinha que um futuro de pesadelo não precisa de muito para se concretizar, apenas algumas pranchetas e apatia em massa.

O diretor de fotografia Guillermo Garza filma cenários negligenciados como se fossem obras de arte, abraçando a sujeira. Sempre que possível, “The Blue Trail” dá um passo atrás e filma um lugar fascinante tal como ele é: casas à beira-mar ligadas por calçadas estreitas de tábuas de madeira, jardins de esculturas cobertos de vegetação com animais cobertos de musgo à espreita no mato e uma fábrica de esfola de crocodilos onde Tereza trabalha. (Alerta de sangue leve: parece ser real, mas não se preocupe muito. Geralmente a vemos esticar as articulações cansadas no vapor.)

Há imagens aqui tão nítidas e lindas que chegam em casa com você como uma pilha de cartões postais no bolso. Uma das mais surpreendentes é simplesmente a poluição: uma margem de um rio na selva repleta de pneus destruídos. O barqueiro brinca que a borracha voltou às origens. Ele está rindo de sua indignação. Logo depois, ele se distrai ao ser atacado pela gosma alucinógena do faz-de-conta do caracol Blue Drool. A trilha azul do título é como as pessoas descrevem a pedrada do caracol para encontrar o caminho para a iluminação. Mas o estilo de Mascaro é realista demais para nos levar a uma aventura psicotrópica boba. Apenas observamos o capitão do barco ir para algum lugar dentro de si que não conseguimos ver, emergindo encharcado de suor.

Da mesma forma, a câmera observa Tereza de Weinberg com um tato sensual que não vi aplicado a nenhum ator com mais de 70 anos que não tenha passado seus anos dourados no cirurgião plástico. “The Blue Trail” não atira nela de forma exploradora, apenas afetuosamente. Dado o desconforto de Hollywood em fazer filmes com heroínas geriátricas, fiquei impressionado com a ousadia de vê-la cantar karaokê de toalha, esfregar gelo no pescoço e dançar nariz com nariz com um novo amigo. A história continua pequena, ficando apenas com ela, uma mulher teimosa que não quer muito do mundo e não se sente responsável por seu resgate. Mas é maravilhoso vê-la traçar seu próprio destino.

‘A Trilha Azul’

Em português com legendas

Não classificado

Duração: 1 hora e 26 minutos

Jogando: estreia sexta-feira, 3 de abril no Landmark’s Nuart Theatre

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