Imagine estar tão obcecado por um relacionamento anterior que guardou todas as bugigangas e lembranças dele, a ponto de querer abrir um museu. Essa é a premissa de Museum Of Innocence, novo drama da Netflix da Turquia.
Tiro de abertura: A câmera percorre uma sala bagunçada que parece a sala dos fundos de um museu.
A essência: Um homem de sessenta anos conversa com um escritor sobre o museu que ele montou para documentar os anos que passou com o amor de sua vida. Quase todos os artefatos do tempo que passaram juntos, começando 30 anos antes, estão na coleção, e o homem diz ao escritor que o guia do museu deveria ser lido como um romance. Ele começa a contar sua história.
Trinta anos antes, em 1975, em Istambul, Kemal (Selahattin Paşalı), filho do magnata têxtil Mümtaz (Bülent Emin Yarar) e de sua esposa Vecihe (Tilbe Saran), está noivo de sua namorada Sibel (Oya Unustası Taşanlar). A família dela está planejando uma elaborada festa de noivado para os dois, mas por questões de logística o noivado ainda não foi formalizado.
Depois de um jantar com a família, Sibel nota uma bolsa de grife na vitrine de uma loja. Percebendo isso, Kemal vai à loja no dia seguinte comprar a sacola; ao chegar lá, ele reconhece Füsun (Eylül Lize Kandemir), uma parente que viu pela última vez quando ela era criança. Agora, porém, ela tem 18 anos e é deslumbrante, e ele não consegue tirar o encontro da cabeça. Ele descobre por sua mãe que eles não são parentes de sangue, mas sim uma família por meio de um segundo casamento, e que Füsun e sua mãe sobreviveram sem muito dinheiro.
Quando Kemal dá a bolsa para Sibel, ela diz que é falsa, o que o leva a devolvê-la à loja. Lá, Füsun chora de frustração, sem poder reembolsá-lo porque o proprietário não lhe dá acesso ao cadastro. Ele a convida para ir a um apartamento de seus pais, sem uso, mas cheio de bugigangas de sua infância, quando ela receber o dinheiro.
Ele passa dois dias seguidos no apartamento e ela não aparece. Mas no terceiro dia ela o faz; ele tenta algumas maneiras sorrateiras de fazer com que ela fique por perto, diz como ela é linda e até a beija. Mas ela se mantém firme, sabendo que ele está com Sibel. O encontro, porém, permanece com os dois. Poucos dias depois, ela volta e eles fazem amor; ele acaba guardando a bituca do cigarro que ela fumou depois, a primeira das mais de 4.000 bitucas que exibe em seu museu.

De quais programas você lembrará? Baseada no romance de 2008 de Orhan Pamuk, The Museum Of Innocence, a série emite fortes vibrações de You, mas com uma reviravolta. (Para sua informação, também é um verdadeiro museu em Istambul, criado por Pamuk).
Nossa opinião: Depois de assistir ao primeiro episódio de Museum Of Innocence (a série separa o “o” do título do romance), temos que nos perguntar se a história de Pamuk funcionou melhor na versão impressa do que na tela. Há muitas coisas na história que parecem extremamente assustadoras, embora o roteirista Ertan Kurtulan e o diretor Zeynep Günay tentem lançar a história sob uma luz transparente e romântica.
A história deveria ser sobre como Kemal negou seus sentimentos por Füsun durante anos, ficando noivo de Sibel e conduzindo sua vida na classe rica de Istambul; sua obsessão por ela é canalizada através da coleção de coisas do tempo que passaram juntos que ele acaba transformando em museu.
Mas no primeiro episódio, Kemal se sente mais como um predador mulherengo do que como um homem que nega seu amor profundo por alguém. Sim, estamos nos anos 70 e Füsun tem 18 anos. Mas em seus primeiros encontros parece que Kemal se sente atraída tanto por sua inocência quanto por sua beleza. Em muitos aspectos, Füsun ainda é uma menina, enquanto Sibel é uma mulher bonita e sofisticada. Por que diabos Kemal se sentiria atraído por Füsun, exceto pelos fatores tabus envolvidos: a diferença de idade, a diferença de riqueza e o fato de serem uma família distante?
Também não há informações suficientes sobre por que Füsun concorda com os olhares maliciosos de Kemal. Não parece haver química entre Paşalı e Kandemir em suas primeiras cenas juntos, e parece que faltam cenas que possam explicar a atração que ela sente por ele.
À medida que Kemal se torna cada vez mais obcecado por Füsun, será que essa estranheza será abordada ou será apenas descartada como um gesto romântico extremo? Não temos certeza, e esse é o maior problema que temos com esta série.

Desempenho que vale a pena assistir: Eylül Lize Kandemir definitivamente comanda a tela como Füsun, embora sua personagem não seja muito mais do que uma figura de fantasia para Kemal no primeiro episódio.
Sexo e pele: Há um pouco de pele nas cenas de amor.
Foto de despedida: Quando um Kemal mais velho descreve as mais de 4.000 pontas de cigarro que colecionou, vemos cada uma delas montada em uma grande parede do museu.
Estrela Adormecida: Oya Unustası Taşanlar tem um trabalho ingrato como Sibel, que está sendo traída e não tem ideia. Suspeitamos que torceremos por ela ainda mais à medida que a obsessão de Kemal continuar.
Linha mais piloto: Sibel critica acertadamente o publicitário amigo de Kemal por criar uma campanha dizendo aos turcos que eles podem “ter tudo” apesar da relativa pobreza do país, e Kemal basicamente ignora isso. Em outras palavras, Sibel tem mente e ideais próprios, o que aparentemente não atrai mais Kemal.
Nosso chamado: IGNORAR. Por mais bem filmado e atuado que Museum Of Innocence seja, a história não é desenvolvida o suficiente para nos dar uma ideia real do que uniu seus personagens principais, além de ser apenas um par tabu.
Joel Keller (@joelkeller) escreve sobre comida, entretenimento, paternidade e tecnologia, mas não se engana: é viciado em TV. Seus escritos foram publicados no New York Times, Slate, Salon, RollingStone.com, VanityFair.com, Fast Company e em outros lugares.



