Os cineastas Biljana Tutorov e Petar Glomazić realizam um truque milagroso com “To Hold a Mountain”. O que começa como um documentário observacional lento gradualmente se revela como uma meditação emocionalmente devastadora sobre o luto e a perseverança. Maravilhosamente filmado com um ritmo calmo e deliberado, é o tipo de filme que fascina o público sem que ele perceba. Só no final é que o público compreende plenamente a magnitude da história que narra e a beleza natural das imagens que tem testemunhado o tempo todo.
Filmado nos meses de verão nas remotas terras altas do planalto de Sinjajevina, em Montenegro, “Hold a Mountain” segue o pastor e fazendeiro de animais de meia-idade Gara. Ela vive uma vida agitada na montanha, cheia de trabalhos constantes e cansativos no terreno com os animais. Sua filha Nada, de 13 anos, passa parte do verão com ela, mas também tem que ir à escola durante parte do tempo, deixando Gara sozinha.
Essa relação íntima e tátil entre mãe e filha dá ao filme seu centro gravitacional. Os dois estão tão próximos um do outro que até dormem na mesma cama pequena. Gara carece do amor e apreço de Nada, sempre pedindo que ela confirme verbalmente seu amor. Um ato violento no passado consolidou sua conexão e a necessidade desesperada, mas gentil, de Gara de validação constante de sua filha. “To Hold a Mountain” revela isso de maneira tão suave e amorosa quanto Gara cuida de Nada. Sua dor é transmitida com a maior sensibilidade de que o público não tem outra alternativa senão compartilhá-la com eles.
Enquanto o vínculo de Gara e Nada forma o fio narrativo principal, “To Hold a Mountain” segue alguns outros. Gara é mostrada cuidando de amizades com outras mulheres desta comunidade com tanto amor quanto cuida de Nada. Há cenas de risadas compartilhadas enquanto lavam, pintam e escovam os cabelos uns dos outros ou ordenham vacas e fazem queijo. Essas cenas se desenrolam naturalmente, sem narração ou intertítulos para apresentar essas pessoas, apenas uma câmera compassiva e cineastas seguindo Gara durante seu dia.
Outro tópico que poderia ter formado a maior parte da história – ou mesmo outro filme – é sobre Gara se tornar um defensor desta comunidade das terras altas na mídia e contra o governo montenegrino. O exército começa a perturbar esta vida tranquila através da realização de treino militar apoiado pela OTAN no meio desta paisagem serena. Gara naturalmente se dedica à causa e emerge como a primeira entre iguais.
A mesma tenacidade que tem pelo árduo trabalho agrícola que aqui aplica, mobilizando pessoas para esta justa causa. Mas um filme sobre um ativista barulhento teria que ser uma história empolgante, e “To Hold a Mountain” é terno demais para isso. Em vez disso, Tutorov e Glomazić aplicam o mesmo toque leve a essas sequências, fazendo com que se encaixem bem no ritmo preciso da história de Gara. Ser uma líder no mundo é tão importante quanto cuidar dos animais.
Na verdade, a cena mais emocionante de “To Hold a Mountain” é aquela em que Gara e Nada carregam um bezerro ferido ladeira abaixo em um carrinho de mão. À medida que descem lentamente, com a mãe do bezerro acompanhando-o, o público percebe a sua ligação com a terra, com os animais e entre si. Não é nada romantizado; este é um trabalho difícil e isso fica evidente. Gara e Nada continuam se atacando, mas no final das contas eles realizam o trabalho em uníssono, como uma família e como legítimos habitantes desta terra. Os cineastas captam tudo isso com tanta beleza e empatia que essa tarefa exaustiva parece lírica na tela.
“To Hold a Mountain” não captura apenas a bela terra e os raios do sol no topo das montanhas. A câmera de Eva Kraljević também está sintonizada com as mãos e os braços enquanto trabalham a terra, e com os rostos enrugados enquanto eles estremecem devido ao trabalho duro e sorriem enquanto desfrutam da camaradagem. A mixagem sonora inspira a respiração dos animais e os passos pesados no chão, como se “To Hold a Mountain” fosse um grande e emocionante filme e esses fossem seus efeitos muito especiais. O resultado final é comparável: um público cativado e emocionado.
“To Hold a Mountain” é tranquilo em sua narrativa e parece pequeno em suas ambições, mas no final das contas parece vulcânico nas emoções que desperta.



