Mais tarde esta noite, “A Providência e a Guitarra”, de João Nicolau, será exibido simultaneamente em cinco salas de exibição em Roterdão como filme de abertura do Festival Internacional de Cinema de Roterdão deste ano, uma ocasião que o cineasta português chama de “grande responsabilidade”.
Adaptado do conto homônimo de Robert Louis Stevenson, “Providência e o Violão” acompanha os artistas viajantes León (Pedro Inês) e Elvira (Clara Riedenstein) enquanto eles se esquivam de policiais mal-humorados e rivais enquanto saltam de cidade em cidade. A peça de época é salpicada de sequências do presente, onde os dois músicos, agora numa banda de punk rock, continuam a lutar para ganhar a vida através da sua arte. Em declarações à Variety antes da estreia mundial do filme na cidade holandesa, Nicolau afirmou: “É uma alegria imensa” ter um espaço de tanto prestígio.
“Nunca estive em Roterdão, mas vários colegas já me disseram que é um festival vibrante, disposto a promover filmes de maior risco, bem como produções mais pequenas”, acrescenta.
“Acho que foi uma escolha muito ousada e corajosa da equipe de programação nos ter como filme de abertura, porque não é necessariamente o típico filme de abertura. Digo isso não pelos temas que o filme explora, mas pela sua linguagem. Há uma certa demanda, e abrimos várias portas para o público e os convidamos a entrar. Estou muito curioso sobre a reação no terreno.”
Nicolau destaca que o breve conto original serviu de “ponto de partida” para o filme de duas horas. “Me apaixonei pelo tom da narrativa e dos personagens, e achei que merecia um longa que traduzisse sua riqueza e as nuances da linguagem. Meus filmes anteriores apresentavam personagens mais secos e lacônicos, e eu queria encontrar o prazer de explorar a linguagem.”
“Escrevi uma primeira versão que seguiu a estrutura do conto, que chamei de versão da câmera, e depois escrevi a versão sinfônica”, continua quando questionado sobre o elemento de salto no tempo. “Essa versão traz sequências no futuro, que são, de certa forma, flashbacks explorando a relação do casal principal. Achei que os temas explorados no conto eram muito atuais, então os saltos no tempo vieram naturalmente.”
“Providência e a Guitarra”, cortesia do IFFR
Todas as músicas do filme são composições originais de Nicolau e do parceiro criativo João Lobo, exceto uma música que utiliza um poema do elogiado poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade. O diretor, também músico amador, diz que a música sempre ocupou um “palco central” em seu trabalho. “A música é uma parte fundamental da existência humana. Se filmarmos personagens comendo, trabalhando, fazendo amor, também podemos filmar personagens cantando, tocando e compondo juntos.”
Quanto aos arranjos simples da música, Nicolau diz que veio da época do filme. Como os personagens principais estão na estrada com acesso apenas a um violão, “não havia espaço nem margem para grandes arranjos musicais”.
Por falar em música, Nicolau ficou feliz por poder trabalhar com o amigo de longa data e popular cantor português — e vencedor do Eurovisão 2017 — Salvador Sobral. “Estou interessado em que músicos profissionais experimentem o cinema em meus filmes”, diz ele. “O processo de escalação de Salvador correu muito bem e, curiosamente, ele quase não canta no filme. Mas sua natureza de músico está presente em todas as suas cenas.”
Mas, é claro, houve vários desafios para fazer decolar uma produção tão ambiciosa. O maior de todos foi o orçamento limitado da produção, uma vez que Nicolau não conseguiu fechar um acordo de coprodução com potenciais parceiros na Bélgica e em França. “A Providência e a Guitarra” é uma produção inteiramente portuguesa, apoiada pela entidade cinematográfica nacional do país, o ICA.
“Essa falta de dinheiro acabou norteando muitas das minhas escolhas criativas”, comenta o diretor. “Não podíamos gastar muito em design de produção ou na construção de novos cenários, o que significou que decidi criar um passado indefinido. Não que isso seja fundamental para o filme em si, desde que não tenhamos elementos contemporâneos na tela. O passado do filme poderia ser de 70 ou 200 anos atrás.”
Apesar de acreditar que o filme poderia ter sido rodado em “qualquer pequena aldeia europeia que fosse conveniente para a coprodução”, Nicolau está satisfeito por ter feito o filme na sua língua nativa. “Sempre quis que o filme fosse em português porque, apesar do texto original ser em inglês, me apaixonei pela tradução em português. Esse foi o meu ponto de partida para todo o diálogo. Houve um prazer na linguagem e no som que foi fundamental para mim criativamente.”
“A Providência e a Guitarra” é produzida por Luís Urbano e Sandro Aguilar para O Som e a Fúria. Shellac detém direitos de vendas internacionais.



