Antigo peso-pesado da radiodifusão francesa, Gilles Pélisson chegou à Unifrance num momento de transição para o órgão de promoção cinematográfica e televisiva francesa. Três anos depois de assumir a presidência — após um longo mandato como CEO da principal rede comercial TF1 — Pélisson supervisiona agora uma organização remodelada pela fusão estrutural com a TV France International, estreitando as fontes de financiamento e um mercado em rápida mudança.
Formando uma dupla dinâmica com a diretora-geral da Unifrance, Daniela Elstner, Pélisson estabeleceu objetivos claros desde o início. “A primeira prioridade era consolidar os fundamentos da associação, especialmente o seu financiamento”, diz ele numa entrevista à Variety pouco antes do início do Unifrance Rendez-Vous em Paris, apontando para a importância de garantir a base financeira largamente pública da Unifrance. O apoio do National Film Board (CNC) foi “renovado e aumentado significativamente, em 2 milhões de euros por ano”, um desenvolvimento que ele descreve como “extremamente importante”. Ao mesmo tempo, a Unifrance “reforçou a nossa parceria com o Ministério da Europa e dos Negócios Estrangeiros”, permitindo o lançamento de novas iniciativas como ‘Amanhã à vista’, um novo rótulo que celebra as vozes jovens do cinema e da televisão franceses.
Pélisson, que anteriormente dirigiu a Accor, a Eurodisney e a Bouygues Telecom antes de assumir o comando da TF1, também conseguiu aproveitar o “apoio do sector privado” para “complementar o financiamento público” no apoio à Unifrance. Como tal, Pélisson foi a força motriz da criação do fundo patrimonial Unifrance em 2024. Os resultados já são tangíveis, com “três grandes parceiros a bordo: Grupo Accor, BNP Paribas e Champagne Pommery”, dando à organização “uma base financeira mais estável e resiliente”, afirma.
Pélisson também trabalhou lado a lado com Estlner para expandir a presença da Unifrance nos principais festivais internacionais, desenvolvendo Clubes Unifrance “em Cannes, mas também em Berlim e Veneza”. Estes centros pretendem reunir delegações francesas, talentos e imprensa internacional, com o objetivo de criar “condições excepcionais que incentivem o intercâmbio, a visibilidade e uma forte presença colectiva do cinema francês no estrangeiro”.
Três anos após a fusão com a TV France International, a Unifrance opera agora “como uma equipa única, promovendo tanto o cinema francês como as obras audiovisuais”. Os resultados, observa Pélisson, falam por si: “’Les Gouttes de Dieu’ ganhou o International Emmy Awards”, enquanto “’HPI’ também foi um grande sucesso internacional”. Juntos, diz ele, “estes sucessos criam verdadeiro orgulho e confirmam que esta estratégia faz sentido”.
Mas Pélisson também está consciente da volatilidade das bilheterias dos filmes independentes. Comentando os resultados internacionais do BO em 2025, ele diz que os filmes franceses alcançaram “cerca de 42 milhões de entradas”, um número que ele chama de “encorajador dado o contexto atual”, com títulos de destaque incluindo o filme de animação letão vencedor do Oscar “Flow”, “Drácula” de Luc Besson e a animação produzida pela TAT “Falcon Express”. Em última análise, ele vê a animação e as coproduções internacionais como as duas principais tendências que reforçam a presença internacional do cinema francês em festivais e teatros. Nos EUA – um mercado que ele considera “enfraquecido” devido às janelas teatrais mais curtas – a Unifrance está ativa em vários eventos importantes, como o Rendez-Vous com o Cinema Francês em Nova Iorque, o Troféu Unifrance em Los Angeles e masterclasses em universidades americanas.
À medida que a Unifrance entra na sua próxima fase, Pélisson está otimista quanto ao apelo dos cineastas, produtores e talentos locais. “A riqueza da produção francesa permanece intacta”, afirma, apontando para “O Fantasma da Ópera”, estrelado por Deva Cassel e Romain Duris; uma nova adaptação de “Les Misérables” dirigida por Fred Cavayé e estrelada por Vincent Lindon e Tahar Rahim; e a saga em duas partes de Antonin Baudry, “De Gaulle”, da Pathé. Há também um novo filme de Arthur Harrari estrelado por Lea Seydoux.
Quais você vê como suas maiores conquistas na Unifrance até agora?
A primeira prioridade foi consolidar os fundamentos da associação, especialmente o seu financiamento, que permanece em grande parte público. O apoio do CNC foi renovado e aumentado significativamente, em 2 milhões de euros por ano, o que é extremamente importante. Reforçámos também a nossa parceria com o Ministério da Europa e dos Negócios Estrangeiros, o que nos permitiu lançar novas iniciativas como o “Amanhã à vista”. A Procirep também continua a ser um parceiro muito forte e comprometido.
Você também diversificou as fontes de financiamento da Unifrance. Por que isso foi importante?
Queríamos complementar o financiamento público com o apoio do sector privado. É por isso que criamos um fundo patrimonial Unifrance em 2024. Estamos agora a ver os resultados, com três grandes parceiros a bordo: Grupo Accor, BNP Paribas e Champagne Pommery. Isto dá à associação uma base financeira mais estável e resiliente.
A Unifrance ampliou sua presença nos principais festivais internacionais. Qual é o objetivo?
Desenvolvemos os Clubes Unifrance em Cannes, mas também em Berlim e Veneza. Estes espaços servem como centros para delegações francesas, talentos e imprensa internacional. A ideia é criar condições excepcionais que favoreçam o intercâmbio, a visibilidade e uma forte presença colectiva do cinema francês no estrangeiro.
Como avalia o sucesso da fusão entre Unifrance e TV France International?
O processo de fusão começou antes da minha chegada e, três anos depois, entramos plenamente numa nova fase. Agora operamos como uma equipa única, promovendo o cinema francês e as obras audiovisuais. “Les Gouttes de Dieu” venceu o International Emmy Awards. “HPI” também tem sido um grande sucesso internacional, entre outros. Estes sucessos geram verdadeiro orgulho e confirmam que esta estratégia faz sentido.
O Rendez-Vous em Paris continua a ser um evento anual importante?
Absolutamente. Eles abrem o ano internacional. Recebemos cerca de 500 compradores de todo o mundo e cerca de 80 empresas francesas, todos sob o mesmo teto. É uma vitrine simbólica e altamente eficaz para obras francesas.
Você também desenvolveu uma estratégia mais voltada para o consumidor com ‘MyFrenchStories’. Por que?
Queríamos falar diretamente ao público, especialmente aos espectadores mais jovens e àqueles que nem sempre têm acesso aos cinemas. As plataformas digitais oferecem uma ferramenta poderosa. ‘MyFrenchStories’ apresenta conteúdo resumido – entrevistas, percepções criativas de compositores e roteiristas – que explica o cinema
de dentro e ajuda a reconectar o público com a experiência teatral.
Apoiar talentos emergentes continua a ser uma missão central?
Absolutamente. A iniciativa 10 to Watch é um pilar importante da nossa estratégia. Esses talentos são exibidos em Paris e Cannes e depois apoiados internacionalmente ao longo do ano, de Tóquio a Nova York. É um verdadeiro acelerador de visibilidade e uma parte fundamental do papel da Unifrance.
Como você avalia o desempenho internacional do cinema francês hoje?
Requer muita humildade. Os resultados das bilheterias internacionais não refletem automaticamente o desempenho nacional. Alguns filmes com desempenho modesto na França podem ter um desempenho extremamente bom no exterior e vice-versa. Por exemplo, filmes como “Drácula” ou “Jane Austin a gâché ma vie” não tiveram um bom desempenho em França, mas tornaram-se verdadeiros sucessos a nível internacional. Em 2025, estamos ligeiramente acima do ano passado, com cerca de 42 milhões de internamentos, o que é encorajador dado o contexto atual.
Quais filmes se destacaram internacionalmente em 2025?
Em 2025, “Flow” destacou-se claramente como o filme de coprodução francesa com melhor desempenho internacional. Com quase 4 milhões de entradas, “Drácula” é o melhor filme francês em termos de bilheteria em 2025, seguido por “Falcon Express” com 2,3 milhões de entradas.
Quais são as principais tendências que você está vendo?
Duas tendências principais se destacam: animação e coproduções internacionais. A animação francesa, em particular, é excepcionalmente forte, impulsionada pela criatividade dos seus escritores e estúdios. Continua a ser uma área em que a França é um líder global. Filmes como “Arco” são o arquétipo da animação francesa: forte narrativa e criatividade. A Unifrance tem uma relação sólida com o Festival de Cinema de Animação de Annecy, que continuará ainda mais no futuro. Também vemos um bom impulso em torno das coproduções internacionais.
Você mencionou que as produções minoritárias francesas desempenham um papel importante nas figuras internacionais. Como assim?
Quando falamos de atuação internacional, temos também de olhar para filmes em que a França é coprodutora minoritária. Estes filmes fazem parte do nosso ecossistema e contribuem para a força global do cinema francês no estrangeiro. Este ano, por exemplo, você tem títulos como “Ainda Estou Aqui”, que é um filme brasileiro com participação minoritária francesa, “Um Agente Secreto” e “Valor Sentimental”. Estes filmes nem sempre podem ser percebidos como “franceses” pelo grande público, mas são muito importantes para nós, tanto em termos de presença artística como de circulação internacional. Eles mostram que o envolvimento francês nas coproduções internacionais é significativo e que a nossa influência vai muito além dos filmes estritamente maioritários franceses.
As plataformas de streaming continuam sendo uma questão delicada. Por que?
Por falta de transparência. Temos dados muito claros para as bilheteiras cinematográficas e para a televisão linear, mas uma visibilidade muito limitada para as plataformas, apesar de os filmes serem lançados em mais de 150 países. Esta falta de dados é prejudicial para a indústria, para a compreensão do ciclo de vida de um filme e para a correta avaliação das obras.
Os Estados Unidos se tornaram um mercado mais desafiador?
Sim, inegavelmente. Janelas teatrais encurtadas enfraquecem a exibição cinematográfica. Ir ao cinema nos EUA quase se tornou um ato militante. Dito isto, os teatros ainda desempenham um papel simbólico crucial na criação de valor e prestígio, inclusive para plataformas, e esse papel não desapareceu. Há também distribuidoras como Neon e Sony Classics que são resilientes e acreditam no cinema francês.
Como a Unifrance atua no mercado dos EUA?
Através de eventos. Encontro com o cinema francês em Nova York, o Troféu Unifrance em Los Angeles, masterclasses em universidades americanas… Durante uma semana, o cinema francês pode realmente ressoar em uma grande cidade como Nova York. E claro, apoiamos totalmente as campanhas do Oscar das nossas produções francesas, especialmente no que diz respeito ao filme “Foi só um acidente” de Jafar Panahi – selecionado para Melhor Filme Internacional.
Você está otimista em relação aos próximos anos?
Sim. A riqueza da produção francesa permanece intacta, com muitas estreias, grandes projetos futuros e uma presença muito forte em festivais internacionais. A França continua a ser o segundo país mais selecionado, depois dos Estados Unidos. Esse é um sinal poderoso. Há também muitos projetos ambiciosos chegando este ano. Temos filmes como “O Fantasma da Ópera”, uma nova adaptação de “Os Miseráveis”, filme de época de Fred Cavayé, e a saga em duas partes sobre De Gaulle. Há também um novo filme de Arthur Harrari estrelado por Lea Seydoux. São projetos com claro alcance internacional.



