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O que acontece no ‘Triângulo das Bermudas’ em Gaza

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O que acontece no 'Triângulo das Bermudas' em Gaza

Já passou mais de um mês e meio desde que foi concluído um cessar-fogo em Gaza. Como parte do acordo, 600 camiões deveriam atravessar diariamente a Faixa de Gaza transportando alimentos, medicamentos, tendas, combustível e outras necessidades básicas.

Habituámo-nos a declarações oficiais que falam de centenas de camiões que atravessam a fronteira todos os dias. As fotos são divulgadas, as travessias são documentadas cuidadosamente e os anúncios são feitos com comemoração.

“4.200 camiões que transportam bens humanitários entram semanalmente em Gaza, desde o início do cessar-fogo. 70% dos camiões que entraram transportavam alimentos… Mais de 16.600 camiões de alimentos entraram em Gaza desde o início do cessar-fogo. Mais de 370.000 toneladas de alimentos”, afirma uma actualização de 26 de Novembro das autoridades de ocupação israelitas.

Alguém poderia pensar que os palestinos em Gaza são as pessoas mais bem alimentadas do mundo.

Para muitos de nós, não está claro como Israel contabiliza os “caminhões de comida”, pois há de fato muitos caminhões comerciais permitidos que transportam alimentos de baixo valor nutricional, como barras de chocolate e biscoitos, ou alimentos que são muito caros, como frango congelado por US$ 25 o quilo ou uma bandeja de ovos por US$ 30.

As organizações humanitárias também parecem duvidar da contagem oficial. De acordo com o Programa Alimentar Mundial, apenas metade da ajuda alimentar necessária entra em Gaza. De acordo com agências de ajuda palestinianas, apenas um quarto da ajuda necessária é efectivamente autorizada a entrar.

E então apenas uma fracção dessa fracção chega realmente aos deslocados, aos empobrecidos, aos feridos e aos famintos. Isto acontece porque grande parte da ajuda que chega a Gaza desaparece num “Triângulo das Bermudas”.

A distância entre a fronteira e os campos de deslocados, onde a ajuda deve ser distribuída, parece curta no mapa, mas na realidade é a distância mais longa em termos políticos e de segurança.

Sim, muitos caminhões que passam nunca chegam às famílias que mais precisam de suprimentos.

As pessoas ouvem falar de camiões, mas não veem pacotes humanitários. Ouvem falar de toneladas de farinha, mas não veem pão. Eles assistem a vídeos de caminhões entrando na Strip, mas nunca os viram chegando aos seus acampamentos ou bairros. É como se a ajuda entrasse em Gaza apenas para desaparecer no ar.

Recentemente, os rumores sobre a falta de ajuda tornaram-se mais ruidosos nas ruas, especialmente porque produtos alimentares básicos apareceram subitamente nos mercados locais, embora ainda ostentassem rótulos que dizem: “Ajuda Humanitária Não está à Venda”. Já vi latas de carne de frango com esse rótulo sendo vendidas por US$ 15 cada.

Mesmo quando as parcelas de ajuda chegam aos necessitados, muitas vezes faltam os itens prometidos. Por exemplo, a minha família recebeu um pacote de alimentos que deveria conter arroz, lentilhas e seis garrafas de óleo de cozinha, mas quando o abrimos não havia arroz nem lentilhas, apenas três garrafas de óleo de cozinha.

Isto não é simplesmente uma questão de corrupção. Após dois anos de guerra genocida, a governação em Gaza entrou em colapso e as suas instituições foram sistematicamente alvo do exército israelita. Não existe uma autoridade unificada e não existe uma força capaz de garantir a ordem e a segurança públicas.

De acordo com o mecanismo da ONU para monitorização da ajuda, de 19 de Maio a 29 de Novembro, 8.035 camiões de ajuda chegaram aos seus destinos dentro de Gaza; 7.127 foram “interceptados” “pacificamente” ou “à força”.

O exército israelita impõe restrições às estradas que os camiões podem percorrer, muitas vezes forçando-os a seguir rotas cheias de perigo. Algumas estradas não podem ser utilizadas sem coordenação com famílias locais poderosas ou comités de bairro, outras são controladas por grupos armados. Tudo isto faz com que uma viagem de algumas dezenas de quilómetros seja um processo muito frágil e fácil de perturbar. É assim que a ajuda desaparece no “Triângulo das Bermudas” de Gaza.

As organizações internacionais também são incapazes de garantir a segurança. Não podem acompanhar os camiões devido ao perigo, não podem supervisionar a descarga em tempo real e não têm pessoal suficiente para rastrear cada carregamento. A sua dependência de comités e voluntários locais significa que dependem de um sistema cheio de lacunas, do qual diferentes partidos rapidamente tiram partido.

No meio de tudo isto, permanece uma grande questão: quem verdadeiramente beneficia com o desaparecimento da ajuda?

Existem os comerciantes em busca de lucro rápido. Existem grupos armados locais que procuram uma fonte de dinheiro. E há, claro, a ocupação e os seus aliados que querem continuar a usar a fome como instrumento de pressão política. Todos eles beneficiam da dor dos palestinos comuns.

O problema aqui é que a atenção ao que está a acontecer em Gaza diminuiu desde o cessar-fogo. O público global sente-se seguro de que o genocídio acabou e já não pergunta por que razão a ajuda não chega ao povo palestiniano.

Entretanto, nos círculos políticos e políticos, o desaparecimento da ajuda está a ser normalizado, como se fosse um resultado natural do conflito. Mas não é; é uma crise arquitetada que pretende ser mais um tipo de punição colectiva para o povo palestiniano.

Enquanto o mundo opta mais uma vez por fechar os olhos, não são apenas os camiões que estão a desaparecer no “Triângulo das Bermudas” de Gaza; é também a força dos palestinianos para continuarem.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial da Al Jazeera.

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