Kleber Mendonça Filho, cujo último filme “O Agente Secreto” representa o Brasil na corrida internacional de longas-metragens ao Oscar, soou o alarme sobre o impacto perturbador do “streaming cultural” na ida ao cinema, especialmente em países como os EUA, onde as janelas dos cinemas são mais curtas.
Ao discursar no Festival de Cinema de Marrakech, onde participou de uma conversa no palco, o célebre cineasta brasileiro disse: “Estamos passando por uma crise em termos de ida ao cinema, mas acho que com a cultura do streaming e também com a pandemia, as regras foram alteradas”.
“Sempre foi muito claro que para ver um filme, você o veria no cinema (…). Bem, isso não é mais tão claro. Acho que isso está afastando muitas pessoas da experiência de ir ao cinema”, disse ele, antes de acrescentar que “a indústria, especialmente em Hollywood, realmente precisa traçar um limite se quiser manter o cinema vivo”.
Mendonça Filho, que deve comparecer ao Gotham Awards onde seu filme está indicado, continuou explicando que Hollywood deveria estabelecer como regra “só lançar filmes no streaming depois de três ou quatro meses”. O franco dirigente destacou que a cultura cinematográfica e as bilheterias do Brasil permaneceram saudáveis, em parte graças às janelas teatrais mais longas.
“Agora que ‘O Agente Secreto’ está nos cinemas do Brasil, deixamos bem claro que esse filme ficará nos cinemas apenas por meses, e só mais tarde será transmitido em algum momento. Se você mandar essa mensagem, se você deixar claro, as pessoas virão, e é isso que está acontecendo no Brasil agora.”
Ele também admitiu que não gostaria de fazer um filme sabendo que ele só estaria disponível em streaming, mas não teria problemas em colocá-lo em uma plataforma após sua exibição nos cinemas. “As pessoas dizem nunca, diga nunca, mas não tenho vontade de fazer um filme apenas para transmissão”, disse ele. “Acho que não me concentraria no que tenho que fazer se soubesse que o resultado final seria exibido pela primeira vez em uma plataforma de streaming.” Ele brincou dizendo que ouviu algumas pessoas dizerem que assistiram seu filme de 2012, “Neighbouring Sounds”, em 17 partes ao longo de duas semanas. “Tudo bem assistir em 17 partes. Mas em algum momento sei que aquele filme teve sua melhor vida nos cinemas”, brincou.
Vendido mundialmente pela MK2 Films, “O Agente Secreto” estreou mundialmente no Festival de Cannes, onde ganhou dois prêmios, melhor diretor e melhor ator para Wagner Moura, além do Prêmio FIPRESCI.
“O Agente Secreto” é um thriller politicamente carregado que apresenta Moura como Marcelo, um especialista em tecnologia em fuga durante o Carnaval no final dos anos 1970, durante os anos finais da ditadura militar no Brasil.
Abordando a atualidade de “O Agente Secreto”, Mendonça Filho disse que percebeu a ressonância contemporânea ao desenvolvê-lo, já que traçaria paralelos com o ex-presidente populista de extrema direita do Brasil, Jair Bolsonaro, que agora cumpre uma sentença de 27 anos por conspiração criminosa.
“Eu estava escrevendo sobre 1977, mas em algum momento comecei a perceber que Bolsonaro trouxe muito da lógica de 50 anos atrás para o seu governo”, disse Mendonça Filho. “Realmente parecia que ele e seu povo estavam tentando trazer de volta os bons e velhos tempos do regime militar, quase como uma festa de Halloween.”
Ele disse que o filme também tocou a Espanha, porque a Espanha viveu “o regime de Franco”, bem como “nos Estados Unidos, onde houve reações muito fortes”, observou.
Neon, que estreou durante o Festival de Cinema de Cannes, estreou em Nova York em 26 de novembro e será lançado em Los Angeles em 5 de dezembro, com lançamento nacional a seguir.
A 22ª edição do Festival de Cinema de Marrakech começou na noite de sexta-feira com a estreia marroquina de “Dead Man’s Wire”. Bong Joon-ho preside um júri poderoso composto por Celine Song, Anya Taylor-Joy, Jenna Ortega, Julia Ducournau, Karim Aïnouz, Hakim Belabbes e Payman Maadi.



